Onde estava Deus no Holocausto?

       

        Celebramos hoje o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU. Diversas cerimonias e homenagens costumam marcar a data, a maioria permeada por um viés político. A data judaica, embora contestada por setores radicais do judaísmo, é o Yom Hashoa, instituído pelo parlamento do Estado Judeu.

           Tanto no Dia Internacional quanto no Yom Hashoa refletimos sobre a sistematização das mortes ocorridas em campos de extermínio, jurando jamais esquecer e nos comprometendo a garantir que a atrocidade não se repita. Não faltam filmes, imagens, artigos e livros relatando os horrores sofridos por judeus de várias nacionalidades e o quase extermínio – bem elaborado, anotado, registrado e organizado – do judaísmo europeu.

             Impossível, para aqueles que acreditam em Deus, não questionar como isso pode ocorrer, como Ele não reagiu diante de uma catástrofe de dimensões jamais antes vistas. Se existe um Deus, como pode haver tanta barbárie, especialmente barbárie contra seu suposto Povo Escolhido? Por que Deus permitiu? Até o Papa fez essa pergunta. Como pode ser que o Criador assistiu passivamente suas criaturas serem assassinadas, asfixiadas, fuziladas, desprovidas de dignidade, sofrendo um processo de desumanização até perderem suas últimas energias para a fome e a miséria?

                Esta irrespondível questão me foi ousadamente respondida em diversas ocasiões. Basicamente, li e ouvi três respostas. A primeira trata-se de responder a pergunta com outra pergunta, no estilo judaico: “Onde estava o Homem?” Essa é com certeza a resposta que menos satisfaz. Quer dizer, quando há coisas boas no mundo ou sucesso e progresso somos obrigados a reconhecer a mão divina, a divina providência, algo superior, mas quando crianças são cremadas em larga escala, devemos ocultar a presença divina? Quando convém, colocamos Deus na História. Porém quando a pergunta incomoda, dizemos que é culpa do Homem? Se a resposta fosse dada por um ateu seria aceitável. Mas quando religiosos respondem dessa maneira, a resposta torna-se superficial. Dizem que quem perpetua a maldade é o homem, mas temos que decidir: ou Deus deixa a “coisa rolar”, afasta-se do mundo totalmente e responsabiliza os seres humanos pelas decisões sem influenciar ou se preocupar, ou Deus está presente e ativo, pode se envolver no nosso cotidiano e determinar os rumos. Se escolhermos a primeira opção, negamos princípios judaicos. Se escolhermos a segunda, devemos incluir os anos 30 e 40 nessa visão e concepção de mundo. A resposta “Onde estava o Homem?” subestima nossa inteligência pois já sabemos  sua resposta e desviamos o foco da questão.

             A segunda resposta visa obter um nexo causal, uma relação de causa-consequência. O povo judeu abandona a Torá e a religião e, em troca, Deus abandona o povo judeu. Essa faz mais sentido. O judaísmo secular cresce no séc XIX e, como castigo, o Holocausto ocorre no século seguinte. Judeus que tentaram se assimilar e se desassociar do judaísmo são discriminados e mortos como judeus.  Porém, como explicar a morte de 1,5 milhões de crianças? Por acaso crianças tem de sofrer pelas ações dos bisavós? Vamos, num momento de loucura, dizer que sim. Vamos supor que devido aos ancestrais abandonarem a religião judaica (o que foi o caso de muitas famílias alemãs), os descendentes, mesmo que tenham quatro anos de idade, devem morrer em câmaras de gás. Porém, como explicar a morte de cerca de 1.000.000 judeus poloneses ultraortodoxos, que confiavam em Deus, vivam para servir Deus, e mesmo assim tiveram suas yeshivot, sinagogas, e vidas destroçadas? Onde está a justiça daquele que é bom e misericordioso?

           Como última explicação, vem a metáfora: um sujeito olha pelo buraco da fechadura uma pessoa sendo lentamente esfaqueada. Logo deduz que ela está sendo assassinada. Porém, quando abre a porta, descobre que na verdade trata-se de um paciente durante uma cirurgia: o homem que está “esfaqueando” na verdade é um médico executando a operação visando salvar sua vida, ele não estava vendo toda a cena pois havia uma porta.  Assim também poderíamos encarar a Shoá: estamos vendo apenas uma parte, um ângulo, um ponto de vista. E outras formas de enxergar são impossíveis aos olhos humanos, não podemos “abrir a porta” e constatar a existência de médico e uma cirurgia por trás de tudo. É uma resposta bonita, porém a pilha de corpos esqueléticos e as montanhas de cinzas fotografadas nos campos de concentração não me permite relativizar a morte, interpretar que estou vendo tudo através do “buraco da fechadura”. Não. Nada justifica, não pode haver nenhuma razão maior ou mais nobre que explique tanto sofrimento. Por mais que seja uma “cirurgia”, as marcas das unhas das câmaras de gás comprovam que ela por si mesma é terrivelmente cruel.

               A pergunta permanece. Ela não pode ser respondida com uma outra pergunta, com uma explicação causal ou com uma metáfora. Todas essas opções são artificiais.

               Não arriscarei respondê-la e sugiro que todos que façam o mesmo. Prefiro colocá-la na lista de “perguntas impossíveis de responder de acordo com o judaísmo”. Não confunda com a metáfora. A metáfora diz que há uma razão, um porque maior que não conseguimos entender. Eu estou dizendo que não há razão, que não se pode responder, que é o mesmo que perguntar “Como Deus sempre existiu?”, ou “O que havia antes de existir alguma coisa?”.

                Mas, registre-se aqui, por curiosidade, a resposta dada em uma entrevista curta que li no Estadão faz muitos anos, com um sobrevivente que emigrou para o Brasil cujo nome já não me lembro: “não sou religioso, mas acredito em Deus. Não acredito que o mundo e sua complexidade vieram do nada, ou foram frutos de uma explosão. Mas acredito que naqueles anos, Ele estava cego. Não há outra explicação. Ninguém poderia assistir tudo àquilo sem fazer nada, impossível contemplar tanta crueldade com seus filhos. Ele se afastou e não viu. Sumiu por alguns anos, simplesmente desapareceu e abandonou.” Entre pensar que Deus ficou do lado do povo judeu, do lado nazista, ou de nenhum dos lados, prefiro esta última opção.

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Segulot

            Velas, amuletos, objetos, rituais, rezas especiais, análise de mezuzot e dicas sobre o futuro têm representando o lado místico do judaísmo nos últimos anos e um dos mais atrativos. Em outro texto, focou-se nos líderes espirituais kabalistas que recomendam tais superstições. Nesse, focaremos na eficácia das próprias ferramentas.

            Escrevo porque constatei filas e filas de pessoas se aglomerarem para escutar algum sábio conselho enigmático e misterioso, mas que resolverá seus problemas de forma rápida, imediata e eficaz. Não sou cético ao ponto de afirmar que não acredito no ocultismo místico, tampouco arrogante de acusar rabinos de estarem equivocados, até porque eles estudam e praticam o judaísmo dezenas de vezes mais do que eu.

            Porém, quando mais e mais livros sobre segulot são publicados, mais e mais pessoas deixam o principal para se ater nos detalhes, ignoram o essencial para se agarrar ao acessório, faz-se necessário alguma voz em sentido em contrário, voz essa que – felizmente – já escutei em algumas sinagogas em São Paulo.

            De acordo com a Wikipédia, supesrtição é a crença sobre relações de causa e efeito que não se adéquam à racionalidade e que geralmente está associada à suposição da atuação de alguma força sobrenatural, que pode inclusive ser de origem religiosa.

          Antes de se fazer valer dos segredos supersticiosos e místicos do judaísmo e tentar descobrir o futuro, temos que estudar preceitos e valores fundamentais do povo judeu, que garantem uma vida recheada de saúde, paz, alegria e conquistas. Após adquirimos tais princípios básicos e portarmos um caráter que se amolda em nossos parâmetros judaicos, poderemos, com cuidado, ousar em adentrar no lado mais transcendental e kabalístico da religião. Isto é, antes de rezar o salmo 24 acendendo vela para Rabi Meir Baal Haness dando Tsedaká e dizendo nomes especiais em uma data especial, precisamos rezar Shacharit.

           Reproduzo abaixo algumas verdadeiras e judaicas Segulot que encontrei na Internet e que pesquisei em nossas fontes. As dedico a nós que vamos atrás de instrumentos supersticiosos esquecendo-se do básico que devemos cumprir.

Segulah para Longevidade: levar uma vida saudável (Rambam, Hilchot De’ot 4:20), praticar bondade  e caridade (Mishlei 21:21), não falar mal dos outros (Tehillim 34:13; Avoda Zara 19b).

Segulah para curar doenças: procurar ajuda médica (Berachot 60a, Bava Kamma 46b)

Segulah para casar: sair e procurar uma esposa adequada (Kiddushin 2b)

Segulah para Shalom Bait: amor e paciência (Sanhedrin 7a, Bava Metzia 59a)

Segulah para ter uma esposa feliz: ser um bom marido (Rosh Hashana 6b)

Segulah para ter um marido feliz: ser uma boa esposa (Shabbat 152a)

Segulah para adquirir espiritualidade: estudar Torá e praticar Mitzvot (Megila 6b)

Segulah para ter suas rezas atendidas: rezar para alguém que está pedindo a mesma coisa (Bava Kamma 92a)

Segulah para conseguir rezar com Kavaná:  encarar a reza com seriedade (Berachot 5:1)

Segulah para evitar decretos ruins: arrependimento, oração e caridade (Musaf, Yamim Nora’im)

Segulah para evitar pecar — evitar a tentação (Sanhedrin 107a)

Segulah para ter uma verdadeira Parnassá — aprender uma profissão (Kiddushin 30a)

Segulah para nunca se afogar: aprender a nadar (Kidushin 30a)

           Esse é o lado genuíno do judaísmo! A pessoa deve viver pela Halachá, baseada na Tora Escrita e Tora Oral (Talmud), pensar racionalmente e não pelos segredos ocultos e místicos. Nossa vida cotidiana – principalmente a nossa que carece de tantos valores judaicos – não pode ser determinada e guiada por amuletos e previsões.

            E para finalizar, em Devarim há um passuk: “Sejas ‘tamim’ com Hashem, teu D’ us”. Rashi escreve que Tamim significa íntegro e Ramban traduz como perfeito. Independente do significado literal, ambos interpretam da mesma maneira o que a Torá quer nos dizer: devemos confiar completamente em D’ us e ter uma fé plena sem ir atrás de pessoas que dão dicas sobre o futuro, previsões e adivinhações.

            Conclusão: segulah para ter uma fé pura – não ir atrás de Segulot!

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Ytzhak Rabin Z”L

No último domingo, os movimentos juvenis judaicos, a FISESP e Agência Judaica organizaram um Ato em Memória a Ytzhak Rabin, assassinado no dia 04/11/1995.

Tive o privilégio de, em nome da Juventude da Federação, expor algumas reflexões que podemos extrair desse trágico acontecimento.

Reproduzo abaixo a íntegra do pronunciamento.

              Boa noite.

            Todos aqui presentes sabem o que significou a fatídica noite do dia 04/11/1995. Não é necessário divagar sobre o atentado que a democracia israelense sofreu, muito menos sobre o impacto dessa tragédia para o povo judeu. Todos que prestamos essa homenagem hoje estamos conscientes da importância de não ignorar essa data, estamos cientes da gravidade do ocorrido.

            Portanto, como representante da juventude, gostaria de atentar sobre um detalhe da vida do assassino Ygal Amir: sua idade. Ele tinha apenas 25 anos quando decidiu atirar nas costas do primeiro ministro israelense por não concordar com suas ideias. Jovem estudante de Direito e comprometido com a religião judaica, Ygal Amir estava convicto que sua forma de conduzir as políticas do Estado de Israel seria melhor que a do governo daquele tempo e decidiu simplesmente eliminar um líder que dedicou sua vida em prol do Estado Judeu.

            Ygal Amir é a prova que a intolerância e o desrespeito podem ascender a patamares inconcebíveis. É um símbolo do radicalismo e uma personificação do extremismo, é a prova de quão valioso e essencial deve ser o conceito de pluralismo entre nós. Mas é também uma mensagem clara para a juventude judaica: com 25 anos, temos o poder de construir e de destruir, de salvar ou de ceifar uma vida. Cabe a nós – e não a mais ninguém – optar pelo caminho correto.

            Na faixa dos 25 anos, temos a capacidade de impactar o povo judeu. Ygal Amir escolheu impactar de forma trágica e triste. Nós, a juventude judaica, podemos nos vingar dessa terrível escolha.

            Sim, nós podemos vingar a morte de Ytzhak Rabin. A vingança consiste em nos unificar mesmo sem apagar nossas diferenças, em respeitar uma opinião diferente mesmo sem concordar, em trabalharmos juntos por um bem maior e com um denominador comum, em criar pontes entre nós, em sermos abertos a um verdadeiro diálogo intra-religioso, em lutarmos pela paz e pelo respeito, em reconhecer que o mundo judaico não é homogêneo e nunca será, mas que cabe a nós enxergar que somos todos parte do mesmo povo e justamente aí reside a beleza do judaísmo. Nós, jovens entre 20 e 30 anos, não podemos permitir que apareçam discípulos de Ygal Amir no que diz respeito a intolerância e a não aceitação do outro.  Nós temos que nos comprometer a aceitar ideias diferentes, indivíduos diferentes, ideologias diferentes. Nós temos tantos objetivos em comum! Por que deixar pequenas discordâncias serem um obstáculo as nossas semelhanças?

            Nós não podemos trazer Rabin de volta. Mas podemos –e é nossa obrigação – nos vingar de seu assassinato, vivendo uma vida judaica plena através de princípios e valores que priorizam o amor ao próximo e o respeito as diferenças.

         Rabin engajava-se em fazer a paz com os palestinos. Ygal Amir provou que igualmente urgente e importante é fazer a paz entre nós mesmos, e depende de nós, possíveis líderes e dirigentes comunitários do futuro, garantir uma comunidade unida e em paz, permeada pelo respeito mútuo e pelo diálogo.

            Sempre que nos desunimos, perdemos. Sempre que elevamos nossos conflitos internos, somos derrotados. A história judaica se repete. Os filhos do patriarca Yaacov atiraram seu pequeno irmão Yossef no poço. O resultado? O povo judeu foi escravizado no Egito. Séculos depois quando o povo já estava assentado na Terra Prometida, conflitos internos desuniram as tribos criando o Reino de Israel e o Reino de Judá. O resultado? O exílio de 10 tribos.  Após a destruição do 1º Templo, o governante judeu Guedália foi assassinado por outro judeu. O resultado? A comunidade judaica foi totalmente desestruturada. Já durante o Segundo Templo os judeus se desuniram e geraram ódio gratuito entre si. O resultado? A destruição do Segundo Templo.  Pouco tempo depois, os discípulos de Rabi Akiva não cumpriram com o preceito de amarás o próximo como a ti mesmo e intensificaram suas discórdias. O resultado? Milhares foram punidos com uma peste, de Pessach até Lag Baomer.  E assim a história se repetiu no dia 04/11/1995. Não há duvidas que o único povo capaz de ameaçar o futuro do povo judeu é o povo judeu.

             Nós somos o futuro, nós damos continuidade a fantástica epopeia judaica através dos tempos. Não podemos permitir que pequenas diferenças, sejam elas políticas, religiosas, sociais, sejam um empecilho e um obstáculo para construirmos uma comunidade mais solidária e mais unida. Nós, jovens judeus da Diáspora, temos o poder e o dever de assumir a responsabilidade de não nos desunirmos, não criarmos intrigas, não tentarmos impor nossa visão de mundo como a única verdadeira, e excludente.

               Essa é a nossa missão. Isso é o que o triste episódio daquela noite nos ensina. Não é um caminho fácil de seguir. Mas, como já dizia o Pirke Avot, não somos obrigados a finalizar a tarefa, porém tampouco somos isentos de nos esforçar e tentar.

           Que a memória sobre essa tragédia sirva como inspiração na busca da harmonia, colaboração, compreensão, respeito e honestidade entre nós.

            Muito obrigado.

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HISTÓRIA, POVO, IDENTIDADE, CONTINUIDADE

                Estamos numa época que relembramos o início da história judaica. Tentarei resumir em algumas linhas toda narrativa do Pentateuco, só para dar uma refrescada na memória. Avraham é aprovado para ser o 1º yehudi de história, pois consegue se sair bem nos 10 testes propostos por D’ us. Eliezer, seu servo, encontra uma noiva para Ytzhak. Ytzhak, como leremos nesse sábado, tem dois filhos. Um deles, Yaacov, é o escolhido para dar continuidade à história do povo judeu. Ele recebe a benção correspondente, casa-se com Lea e Rachel, nossas outras matriarcas, e gera um total de 12 filhos. Após um pequeno desentendimento gerado por inveja e ciúmes, seu filho preferido é vendido para o Império Egípcio por seus próprios irmãos. O filho consegue dar a volta por cima e reencontra sua família. Ascende ao trono um Faraó, que como a Torá nos diz, “não conhecia Yossef”, isto é, já não lembrava mais dos judeus com bons olhos. Então, anos após Yossef, um hebreu, ter ocupado um dos postos hierárquicos mais altos no Império Egípcio, o governo decide escravizar todos seus descendentes.  Um parêntese. A história repetiu-se e tornou-se uma tradição: os judeus são bem recebidos, desenvolvem-se e desenvolvem a nação em aspectos sociais econômicos e políticos e anos depois são expulsos, ou escravizados, ou oprimidos e perseguidos.

                Continuemos. Nasce Moshe e ele sobrevive ao decreto de morte aos bebês meninos de origem hebraica. Cresce no Egito, mas logo sai e descobre que é o escolhido por D’ us para libertar Seu povo. Moshe volta e exige do Faraó a liberdade. Diante da negativa, são impetradas pragas cada vez mais danosas. O mar abre passagem para a fuga. Os hebreus enfim consegue escapar do aprisionamento egípcio e se transformam no povo judeu. E então se conclui um dos episódios mais rememorados na vida judaica: a saída do Egito.

                 Foquemos em um momento específico do êxodo: a 10ª praga. Os primogênitos egípcios vão falecer. Os hebreus vão adquirir liberdade. Talvez este seja o clímax da história, um dos capítulos mais tensos da novela. Moshe reúne todos e os instrui a proteger suas casas. Ele então conclui seu discurso na véspera da 10ª praga, na véspera da liberdade. Ele poderia relatar as obrigações morais e religiosas que provêm do privilégio de ser não somente um povo livre, como também o povo escolhido. Ele poderia, como estou fazendo agora, relembrar toda trajetória judaica até aquele presente o momento. Ele poderia reforçar a importância de servir D’us e não O abandonar. Poderia alertar para as tentações de desvio da conduta requerida, ou discursar acerca dos próximos passos da jornada de forma pragmática e objetiva, fornecendo instruções acerca da peregrinação até a Terra Santa. Mas ele não faz nada disso. Ele conclui suas instruções falando sobre o futuro, sobre os filhos – “e quando seus filhos perguntarem, vocês dirão…”.

            Moshe volta nesse tema várias vezes. Eu imagino que os judeus da época não devem ter compreendido muito bem o porque referir-se ás próximas gerações no momento do auge das pragas divinas, na hora que antecede todo ápice de narrativa. Hoje, compreendemos: se queremos ser imortais e defender a continuidade do povo da Bíblia, precisamos contar aos nossos filhos. Assim como um país precisa de um exército para se defender suas fronteiras, um povo precisa de educadores para defender sua continuidade. Moshe estava no Egito na época das construções das enormes pirâmides e percebeu que esse seria o legado da civilização egípcia da antiguidade. Ele escolheu um caminho diferente para o povo judeu. Esse caminho determina que construamos escolas e sinagogas ao invés de pirâmides e monumentos. Que cuidemos do órfão, da viúva, do pobre, do estrangeiro, do fraco ao invés de cuidar das supostas vontade de vários deuses que imperavam na cultura politeísta da época. Que contemos aos nossos filhos. Deu certo. Aqui estamos. Sobrevivemos, apesar de todas tentativas de nos aniquilar.

            E então chegamos a 2013. O início da história que lemos essa semana não parece estar tendo um fim glorioso, apesar do renascimento político em nossa terra. Durante séculos, nos mantivemos fiéis na determinação de Moshe. Apesar de todas as dificuldades, nos mantivemos judeus e transmitimos nosso legado, cujos aspectos em grande parte já foram incorporados pela cultura ocidental.  Contudo, quantos judeus permanecem judeus e optam por ter uma vida judaica construindo um lar judaico? Quantos sentem orgulho de pertencerem ao povo judeu?

         A resposta se dá com uma metáfora (presente no livro Letter in the Scroll). Imaginemos uma biblioteca antiga. Entramos nela e vemos uma série de livros de variados temas. Começamos a folhar e logo entramos na mente do autor, nos emocionamos com histórias, sentimos um pouco de aventura ou tristeza, emergimos no contexto do livro. E então fechamos o livro e voltamos à realidade. Podemos abrir e fechar outros de vários estilos e ideologias, de acordo com nossos interesses e nossa vontade.  Eles não são parte de nós, são apenas interesses externos. E então avistamos um livro antigo diferente, com nossos sobrenomes na capa. Intrigados, naturalmente decidimos abrir o livro e logo percebemos várias anotações e comentários. Gradualmente, entendemos sobre o que se trata: é a história de todos nossos ascendentes. Todos antepassados contando como eram suas vidas e o mundo para que a próxima geração possa compreender de onde elas vêm,  o que aconteceu com sua família, o que viveram e porque viveram, o que conquistaram, qual aliança com D’us realizaram, quais valores defendiam, quais princípios norteiam nossas origens. E então conseguimos encontrar nossos nomes. Este não seria um livro comum qualquer que podemos descartar e tratar como outro. Nós saberíamos que fazemos parte de algo e que estamos no meio da jornada, não podemos abandonar o barco, a continuidade depende de nós. Nós faremos parte da história? Escreveremos nosso capítulo nas entrelinhas? Daremos o livro a nosso filho? Ou riscaremos nosso nome e abandonaremos a obra em um museu?

           Ser judeu é ser um capítulo nesse livro. O livro oferece o conhecimento de quem somos, é o passado que deve modelar nosso presente e construir nosso futuro. Nós vivemos em certo país, temos amigos, compromissos, paixões, preocupações. Mas tudo responde apenas o que fazemos, com o que nos importamos, do que gostamos. Quando trata-se de responder quem somos, temos que viajar no tempo e descobrir quem eram nossos pais, e os pais de nossos pais e assim por diante. E quando descobrimos, temos que contar aos nossos filhos, temos que ser guardiões da história. Essa é a essência da identidade judaica.

                Baal Shem Tov dizia que o povo judeu é como a Torá e que cada judeu é uma letra da Torá. Nosso passado nos vincula a algo maior. Devemos optar por continuar, não podemos falhar agora, somente se nos orgulharmos do judaísmo e transmiti-lo poderemos carregar a história de centenas de gerações. Esse é nosso dever: não podemos ser letras faltantes no pergaminho de Baal Shem Tov.

          Por que tantos e tantos judeus não se sentem parte? Porque seus pais não cumpriram com a primeira determinação de Moshe. Simples assim. Não contaram a seus filhos. Preferiram colégios laicos em detrimento de escolas judaicas de qualidade que harmonizam o judaísmo com outras matérias, superestimaram o inglês em detrimento do hebraico, optaram por aulas particulares de todos os temas menos judaísmo e principalmente porque não deram o exemplo pessoal necessário e não mostraram o judaísmo como ele merece ser visto. É nesse contexto que surgem então viagens e organizações judaicas desesperadas por tentar construir uma identidade judaica instantânea que dê sentido a vida judaica e estimule a continuidade.

                 Temos que criar um sentimento de pertencimento. E para criar esse sentimento, precisamos focar na história judaica e nos valores judaicos. E equivocam-se aqueles que pensam que para isso é necessária uma vida baseada no judaísmo ultraortodoxo. Não podemos confundir religião e povo. Existe um povo muçulmano? Um povo budista? Um povo católico? Não. Mas existe um povo judeu e é aí que está o segredo. Relembramos constantemente a saída do Egito pois foi esse episódio que nos transformou de um aglomerado de indivíduos em um povo, um povo que fez uma aliança com D’ us para a eternidade. Quando Ruth converteu-se ao judaísmo a primeira coisa que disse foi “amecha, ami” – seu povo é meu povo. Ela não disse logo de cara “seu D’ us é meu D’us”. Para ser judeu, primeiro precisamos nos sentir parte do povo judeu, antes mesmo de exercer a religião judaica.

              Por que vivíamos em guetos e éramos excluídos da sociedade? Por causa que nossa fé e nossas crenças eram diferentes? Não! Porque éramos um povo a parte, uma nação no meio das nações, dispersos pela terra.

             Em 1801, Napoleão Bonaparte encarregou o Ministro de Culto francês, Portalis, de preparar um relatório sobre as relações entre a religião judaica e o Estado. Em abril de 1802 Portalis leu diante da Assembleia Legislativa: “o governo cuida da organização de diversos cultos e tem também em conta a religião judaica, ela deve ser livre como as demais crenças conforme estabelece nossa lei. Porém os judeus, antes de uma religião, constituem um povo, vivem entre as nações sem se mesclar com elas.”

              O que Haman disse a Achashverosh há 2000 anos? Como ele nos apresentou? Copio e colo o 8º passuk do 3º Capítulo: “Disse, então, Haman ao rei Achashverosh: Existe um povo, espalhado e disperso, dentre os demais povos de todas as províncias de teu reino, cujas leis são diferentes de qualquer outro povo, e que não cumpre as leis do rei; pelo que não convém ao rei conservá-lo”. Ele não afirmou ‘há uma religião ou uma fé diferente da que defende vosso reino’! Ele referiu-se ao conceito de povo!

           Quando D’us faz uma promessa a Avraham ele não diz ‘e farei de ti uma grande ideologia, fé, religião, crença’. Ele diz ‘farei de ti um POVO grande’. AM Israel Chai. O movimento charedi pode alegar que nossa essência é a religião. O movimento sionista pode alegar que nossa essência é uma nação. O movimento nazista pode alegar que nossa essência e é uma raça. Mas nós somos, antes de tudo, um povo.

          Nós somos um povo e cada vez mais esta definição essencial vem sido deixada de lado. Um povo, é claro, tem sua cultura, seu idioma, sua religião, sua pátria. Uma cosia não desobriga a outra. Mas quando estamos viajando de turismo em um país remoto e encontramos uma família judia, não nos identificamos? Não nos desperta curiosidade e interesse? Por quê? Se judaísmo fosse só uma religião, teríamos rituais e tradições antigas não tão atraentes, que é a forma que muitos interpretam (principalmente aqueles cujo ápice do judaísmo se dá no bar-mitzva). E, enfim, seriamos indiferente quanto o que ocorre com os judeus nas outras partes do mundo, simplesmente não seria do nosso interesse. Por acaso um muçulmano da Síria se identifica com um da Arábia Saudita? Pelo contrário, dependendo do caso eles podem vir a guerrear entre si! Mas os judeus não. Os judeus fazem parte de um povo. Se houvesse apenas a religião judaica qual seria o problema de casar-se com alguém de outra fé?

         Nesses tempos em que lemos o início de toda evolução de nossa história, temos que nos questionar como garantir a continuidade do povo judeu, como fazer com que mais pessoas vejam seu nome no livro. Temos que identificar os motivos que levam indivíduos a rechaçar e abandonar o povo que nasceu para ser uma luz entre as nações, avaliar como estamos apresentando a religião judaica. Essa é a missão e o grande desafio dessa geração. Moshe já nos deu a resposta. Precisamos encontrar meios originais de colocá-la em prática.

          Não é uma tarefa fácil. Mas como diz o Pirke Avot, não nos cabe finalizar a o trabalho, mas também não somos isentos de começar e se esforçar.

          Eis uma causa nobre para viver e uma inspiração para engajar-se no esforço de fazer a diferença. Ou morrer tentando.

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Responsabildiade

      *Texto inspirado nas ideias contidas em um artigo do Rav. Jonathan Sacks.

       Recapitulemos os primeiros erros da Humanidade, como o fizemos em hebraico nas últimas semanas. Havá, influenciada pelo Yetser Hara personificado na serpente, come o fruto da Árvore do Conhecimento e convence Adam a também pecar. A reação de ambos perante a fúria de D´us se parece às desculpas infantis atuais dos nossos erros: não apenas deixar de assumir a culpa, como a transferir para outro. Adam, depois de tentar se esconder e fugir da situação, acusa Havá dizendo “a mulher que Tu me destes que deu-me o que eu comi da árovre”. Já Havá, quando questionada, logo se justifica afirmando que “a serpente seduziu-me e eu comi”. Eles negam a responsabilidade individual, se eximem da responsabilidade pessoal de não pecar.

            Caim, a 2ª geração humana, assassina seu irmão Abel. Mas ele não diz “a culpa é de meu irmão que me provocou”, transferindo a culpa como fez seus pais. Ele nega a si uma responsabilidade moral. Quando D’us questiona o paradeiro de Abel, Caim responde: por acaso sou guardião do meu irmão? Em outras palavras, o que eu tenho a ver com isso, por que deveria saber onde ele está? Não se trata de uma carência da responsabilidade individual e sim de uma tentativa de se isentar da obrigação moral.

           Noach falha na responsabilidade coletiva. Apesar de ser um homem justo e íntegro em sua geração, ele não consegue salvar ninguém do Dilúvio. Aparentemente, ele nem ao menos tenta, não assume essa responsabilidade social.

             E logo depois Avraham, o primeiro yehudi, entra em cena.

         Avraham assume a responsabilidade individual. Ele tenta resolver seu conflito com Lot, propõe um acordo, não joga a culpa em outro, assume suas supostas falhas, toma iniciativa para tentar solucionar o problema e não fingir que outro é responsável.

          Avraham assume a responsabilidade moral e coletiva. Avisado da destruição de Sdom e Amora ele poderia falar como Caim – por acaso sou guardião das cidades? Mas ele não o faz. Do contrário, trava uma luta argumentativa com D´us para tentar o convencer a não destruir a cidade. Não aceita a eliminação de uma cidade sem antes verificar que não há pelo menos 10 cidadãos justos. Avraham se recusa a adotar a política do “azar é deles, eu vou ficar na minha”.  Por que a Torá faz questão de nos contar, em quase 10 versículos, a interferência de Avraham e sua tentativa de salvar as cidades? Para nos ensinar que devemos assumir responsabilidades, tanto no prisma individual, quanto no moral ou social.

    Yossef assume responsabilidade. Ele, sem perder seus valores, ascende hierarquicamente no Império Egípcio, decifra os sonhos do Faraó e trata de montar uma estratégia comercial para os sete anos de fome e sete anos de fartura. Ele não assiste passivamente tudo que ocorre e adquire para si o comprometimento de resolver a situação.

           Moshe assume responsabilidade. Ele presencia uma briga de dois egípcios e logo tenta interferir, não se contenta que não tem nada a ver com aquilo. Lidera o povo judeu, enfrenta o Faraó.

          Os profetas assumem responsabilidade. Eles tentam mudar a sociedade judaica, alertam sobre os perigos dos caminhos que estão sendo trilhados, sentem-se responsáveis pelo povo judeu e usam suas profecias para tentar influenciar de certa forma seu destino, não se eximem de sua função.

           Mordechai e Esther assumem responsabilidade. Não jogam nas mãos do Criador tudo, apesar de tudo depender Dele. Esforçam-se e correm atrás para anular o decreto de morte aos judeus. Não se isolam. Não fingem que não lhes diz respeito. Esther era rainha, não sofreria as consequências. Na hora do “dilúvio”, ela estaria segura no palácio real, assim como Noach esteve seguro na arca.

           Judaísmo nos chama para assumir responsabilidades e como vimos não faltam exemplos bíblicos dessa característica inata da liderança.

          Entrei na Wikipedia para ter mais informações acerca do famoso diplomata americano autor da frase que usei como imagem para esse texto e não fiquei surpreso ao ver no campo religião consta ‘judaism’. Talvez ele não refletiu sobre os personagens da Torá, acredito que não seja um sujeito muito religioso, mas ainda assim classificou como insuportável a ausência de responsabilidade. Pode ser que seja o inconsciente coletivo, o destino final de um povo, uma missão subliminar,  uma herança ideológica de Avraham, chame como quiser. Mas fato é que o conceito de responsabilidade permeia e dignifica o judaísmo. Estamos aqui para ser parte e fazer a diferença, não apenas para contemplar e nos distanciar da realidade.

            Que possamos seguir esse caminho e ser, como nos ordena a Torá,  uma luz para as nações!

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APOSTILA

Compilação de todos os textos do Blog entre outubro de 2012 e outubro de 2013

Compilação de todos os textos do Blog entre outubro de 2012 e outubro de 2013

Texto de introdução da apostila

Shalom!

Reflexões Judaicas! O nome diz tudo! Pretendo abordar, toda quarta-feira, reflexões sobre o judaísmo e nosso papel como judeus, além de transcrever frases interessantes de nossas fontes judaicas e postar vídeos reflexivos! Há pessoas muito mais profissionais e habilidosas para ensinar a religião os valores judaicos, de modo que esse Blog apenas trata de questões mais reflexivas e polêmicas sobre o judaismo contemporâneo. Destinado a todos que possuam um conhecimento básico sobre judaísmo, principalmente a jovens judeus preocupados com a dinâmica do mundo e com o lugar dos judeus na comunidade internacional e judaica. Vários dos posts apresentarão interrogações! Convido o leitor a comentar e debater os temas abordados!

 Assim apresento meu blog www.reflexoesjudaicas.wordpress.com

          A ideia de fazer essa apostila é compilar todos os textos do primeiro ano do site cuja inauguração se deu em 03/10/2012, bem como as frases que foram acessadas por internautas que muitas vezes buscaram ‘pensamentos do Talmud’ ou ‘frases da Torá’ através do Google e chegaram a esse blog. Espero poder ter contribuído.

       Alguns textos podem conter opiniões que não mais estou de acordo pois, como o próprio nome já diz, trata-se de reflexões e não de verdades e respostas absolutas. E como já dizia Raul Seixas, eu prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.

            Se você não pertence a comunidade judaica ou é um judeu desinteressado por temas judaicas, você não vai gostar dessa apostila.   Se você não é religioso, você vai criticar meus textos. Se você é ultraortodoxo, você vai criticar meus textos. Se você é tradicionalista, você vai criticar meus textos.   Se você é reformista, você vai criticar meus textos.E assim por diante. Isso porque meu objetivo não é agradar ninguém, e sim expor pontos de vista através de uma análise crítica reflexiva dos temas abordados.

          Enfim, em um mundo literário onde artigos e textos são ou muito políticos, ou muito corretos, ou demasiadamente politicamente corretos, Reflexões Judaicas assume o papel de questionar o que não se questiona e responder o que não se responde.

          Uma última especificidade é que para mim o sucesso ou fracasso do Blog independe de acessos. Principalmente no começo, eu não escrevia textos porque tinha um Blog, eu tinha um Blog porque escrevia textos. A título de curiosidade, informo ele foi visitado cerca de 8.000 vezes e obteve 90 diferentes comentários nesse um ano de vida.

          Optei por excluir os comentários aqui, mas você pode acessar o blog e verificar se há comentários de outros leitores, sendo claramente possível a inserção de dúvidas ou comentários (principalmente discordantes) no próprio site.

          Por último, aviso que subdividi todos os artigos em cinco categorias. São elas:

  • Chaguim/datas
  • Israel
  • Continuidade Judaica
  • Comunidades/Linhas do Judaísmo
  • Valores
  • Outros Autores

                  Boa leitura!

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