Exemplo e orgulho

Avraham, filho de Eliahou e Luna, nasceu em 1785 em Sidon (Saída), cidade próxima de Beirute, quando seu pai tinha 25 anos de idade. Sabemos que foi o primogênito da família pois carregava o nome do seu avô paterno. De seus pais Elyahou e Luna e seus ancestrais, sabemos somente que também viviam em Sidon. Seu único irmão menor, Yeshayahou, mudou-se para Tyre, na costa do mar mediterrâneo. Mas os filhos de Yossef, filho único de Yeshayahou, retornaram à sua cidade natal no século XIX. A família de fato estava enraizada em Sidon há várias gerações e lá permaneceram por um longo período, ainda quando a cidade estava sob o domínio do Império Otomano.

Voltemos a Avraham, para não expandir muito os ramos da árvore genealógica e não cansar a o leitor.

O censo Montefiore classificou Avraham como sendo um indivíduo pobre. Sua profissão, denominada em inglês como “peddler”, indica que ele vivia de esmolas e donativos. Talvez pedisse dinheiro nas ruas, talvez tivesse um pequeno e humilde comércio e ia de porta em porta tentar vender artigos baratos, talvez vivesse de favores na comunidade. Não sabemos, jamais saberemos ao certo.

A data registrada do nascimento de seu primeiro filho indica que ou Avraham casou-se muito tarde para os padrões de sua época (43 anos!) ou casou-se na faixa etária comum, mas sua esposa, Sara Dana, enfrentou dificuldades para engravidar, concebendo a criança somente após vários anos de vida matrimonial. Ou, é claro, outra possibilidade é que os dados e os registros estão incorretos. De qualquer forma, uma vez pai, a infeliz situação econômica de Avraham não constituiu obstáculo para criar mais filhos: o casal teve 5 meninos e 2 meninas, talvez porque Avraham sentiu falta de uma companhia fraternal durante sua juventude (lembre-se que seu único irmão Yeshayahou mudou-se para Tyre) e quisesse de certa forma compensar isso.

Ao filho primogênito foi dado o nome do avô (Eliahou), seguindo a tradição. Outro filho ganhou o nome do primo Yossef. Apesar da pobreza e da idade, Avraham logrou fornecer uma excelente educação aos filhos.  Eliahou, o mais velho, dedicou-se com mais afinco e amor ao judaísmo e obteve título de “Chacham” e “Rabbi”. No entanto, ao contrário da tendência atual, a formação rabínica não impediu Rabbi Eliahou de exercer uma profissão digna e ganhar seu próprio sustento – ele foi também um exímio comerciante de licores.

No entanto, o sucesso espiritual e material a princípio não coincidiu com sua vida familiar. Rabbi Eliahou casou-se com Rahlo e teve dois filhos. As fontes não esclarecem se houve um divórcio ou Rahlo faleceu. De qualquer forma, o matrimônio dissolveu-se e por cerca de 15 anos Rabbi Eliahou permaneceu solteiro.

Finalmente, quando tinha aproximadamente 40 anos, casou-se novamente com Rachel Sasson, que havia nascido em Bombai, Índia, mas que por alguma razão mudou-se para Sidon. Com ela, Rabbi Eliahou pôde ter mais 9 filhos.

Em 1897, Rabbi Eliahou faleceu com 64 anos de idade. Em sua lápide, registrou-se para a eternidade que ele foi um homem completo, dedicado à caridade e à bondade, além de um líder comunitário. Um de seus filhos do segundo casamento, Jacques, homenageou o bisavô (pai de Rabbi Eliahou) e deu o nome de Avraham a um de seus filhos.

Este Avraham, neto de Rabbi Eliahou, nasceu em 1922 em Sidon, mesma cidade de seus ascendentes, mas por diversas razões teve de mudar-se para o Brasil. Ele casou-se com Mirelle Saadia e teve três filhos: Jaky, Carol e Joja.

Jaky casou-se com Lina Dayan e juntos criaram este autor que vos escreve – mais um Avraham.

Todos meus ancestrais mencionados nesse texto carregam o sobrenome da nossa família – Diwan.

Avrahams Diwans vêm e vão e deixam a marca neste mundo há séculos. Tenho curiosidade de saber como viviam, o que pensavam, quais eram suas aspirações, suas decepções, suas alegrias. Meu neto Avraham Diwan deve chegar aqui por volta de 2060, quase 300 anos após o nascimento de Avraham Diwan, pai de Rabbi Eliahou.

Tive a feliz oportunidade de conviver com Avraham Diwan Z”L, meu avô, durante 15 anos. No último dia 20 de janeiro, completou-se 10 anos de seu falecimento, razão pela qual presto-lhe essa singela homenagem.

Lembro que, aos 80 anos, meu avô lia a Torá traduzida regularmente – o livro estava lá quando íamos jantar sexta-feira. Lembro de sua extensa sabedoria em tudo que se refere à saga do povo judeu e me recordo que todos ouvíamos com atenção suas narrativas da epopeia judaica ao longo da História. Tal paixão talvez nasceu originalmente em Rabbi Eliahou Diwan, foi passada para meu bisavô Jacques e este transmitiu para meu avô, que transmitiu ao meu pai e que me transmitiu, e, por fim, foi utilizada como combustível para criar este blog que hoje já conta com mais de 50 reflexões judaicas.

Me recordo que, quando fui fazer um teste vocacional durante o colegial, a orientadora disse que a profissão ideal era Jornalismo ou Direito e me perguntou se eu tinha algum jornalista na família. “Sim” – respondi – “meu avô era jornalista no Líbano”.  Ainda lembro do sorriso no rosto do meu avô ao ver os netos e juro que posso sentir suas mãos me cumprimentado nas noites de sexta-feira, desejando shabat shalom. Lembro que pedi aos meus pais que me deixassem vê-lo no hospital em uma de suas últimas visitas, mas eles acharam melhor que eu não presenciasse a cena. Lembro que quando o Rabino Laniado veio cortar um pedaço da roupa dos enlutados minha avó respondeu “Pode cortar, o coração já está cortado mesmo”.

Lembro que ele me abençoou no dia do meu Bar-Mitzvá e me presentou com um texto que até hoje está afixado no mural do meu quarto. Aliás, é o único presente que de fato me recordo e o mais pessoal. O texto repetiu as mesmas palavras que ele proferiu no vídeo do Bar Mitzvá e concluiu em negrito e maiúsculo: Seja um exemplo para teus irmãos e um orgulho para teus pais e avós. Ponto. Esta é a mensagem que meu avô quis passar. Este é o resumo de tudo, esta é a meta: ser um exemplo e um orgulho. Eis o dom de expressar muito dizendo pouco. Frase digna de uma outra reflexão judaica.

O Rav Jonathan Sacks, em sua obra Letter in the Scroll, explica que a família judaica é como um grande livro[1], que retrata a história de cada ancestral e onde podemos localizar nossos nomes. Nós saberíamos que fazemos parte de algo e que estamos no meio da jornada, não podemos abandonar o barco, a continuidade depende de nós. Nós faremos parte da história? Escreveremos nosso capítulo? Daremos o livro a nosso filho? Ou riscaremos nosso nome e abandonaremos a obra em um museu?

Terminaria aqui, com tais interrogações, mas não posso deixar de registrar a inspiração para esse texto. Conforme os leitores atentos lembrarão, Rabbi Eliahou teve duas esposas. Eu sou descendente da Rachel Sasson[2]. Mas essa semana conheci, através do Facebook, descendentes de Rahlo, a primeira esposa. O bisneto de Rabbi Eliahou e Rahlo chamava-se Joseph Diwan e também teve que sair de Sidon. Mudou-se para o Brasil e foi chazan da sinagoga Beth-El em Copacabana (RJ)! Seus descendentes atualmente moram no Rio de Janeiro. Toda essa breve pesquisa[3] originou-se, pois conheci, pelo Facebook, a neta de Jospeh, Cláudia Diwan, quando ela divulgou em um grupo judaico a inauguração do Projeto Ghesher, destinado aos jovens da comunidade judaica carioca, e comecei a investigar nosso parentesco.

Examinar nossas raízes nos possibilita conhecer o passado da família e nos faz refletir sobre o que realmente importa. Aprofundar-se em nossas origens nos leva ao conhecimento sobre quem somos, como viemos parar aqui e como pretendemos planejar o futuro. Fornece uma certa dose de responsabilidade.

É, por fim, um belo incentivo e uma motivação para sermos um exemplo para nossos irmãos e um orgulho para os nossos pais e avós, principalmente aqueles que carregam nosso nome.

[1] Para ler mais a respeito – https://reflexoesjudaicas.wordpress.com/2013/10/30/historia-povo-identidade-continuidade/

[2] Outros descendentes brasileiros do primeiro casamento do Rabbi Eliahou são meus amigos Patrick Chalom, Lara Hamoui, Alessandra Kaufman, e suas famílias. Eles são filhos e netos de Bahie Diwan. Seu pai, Isaac Diwan, filho do Rabbi Eliahou, foi um grande proprietário de terras da comunidade judaica de Sidon e Gerente Financeiro da Secretaria da Comunidade.

[3] A fonte utilizada foi o site www.farhi.org. Todas informações e dados foram obtidos neste endereço.

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New Jewish Day School Organization

Nessa semana foi anunciada a criação histórica de uma nova escola judaica nos EUA, sob o nome provisório de New Jewish Day School Organization – http://newjdsorg.org/

Seguindo o modelo educativo norte-americano de Jewish Day School (https://en.wikipedia.org/wiki/Jewish_day_school), a instituição foi criada a partir de 5 escolas judaicas dessa modalidade, que decidiram se unir e formar uma das maiores organizações educativas do mundo.

O tema desperta especial interesse em virtude da mistura de correntes judaicas em torno de um mesmo ideal: organizações reformistas, conservadoras e ortodoxas chegaram a um consenso (não me pergunte como) e em um acordo para oferecer um “ um campo de escolas judaicas fortes e vibrantes e que desempenham um papel central na criação de uma comunidade judaica altamente educada, rica em tradições enraizadas do Judaísmo, ativa em suas contribuições para a vida judaica, e energicamente envolvidas em as questões religiosas, acadêmicas e seculares do dia-a-dia.”

A iniciativa surpreende, pois inaugura uma nova e inédita visão onde as semelhanças e o objetivo em comum se sobressaem e se sobrepõem às diferenças religiosas e ideológicas.

O fato de conservadores e reformistas aceitarem tal acordo não impressiona. Ambos consideram o ‘pluralismo’ como uma das maiores mitzvot da Torá e constantemente defendem a legitimidade de existir diferentes linhas judaicas heterogêneas, onde cada um pode expressar seu judaísmo da forma que melhor o convém.

Chama a atenção, no entanto, a participação da Yehsiva University, representada na Diretoria do New Jewish Day Shcool por Yossi Prager, que já foi juiz do Beit Din dos Estados Unidos! Para alguém que defende a halachá e o judaísmo tradicional, não deve ser fácil aliar-se à rabinos que efetuam conversões questionáveis do ponto de vista do Shulchan Aruch, realizam casamentos mistos, violam as leis tradicionais do Shabat e Kashrut, entre outras evidentes diferenças abismais que permeiam tanto o cotidiano prático judaico quanto suas filosofias abstratas teóricas.

A decisão da Yeshiva University, portanto, é, no mínimo, polêmica e discutível e suscita diversas questões. Devemos nos unir para fortalecer nossas forças em nome de um princípio maior? Ou as diferenças entre nós incompatibiliza qualquer associação? O correto é defender a tolerância, o pluralismo, a união, ou lutar pela supremacia do judaísmo tradicional?

Aqui no Brasil, sinto que qualquer associação deste tipo está absolutamente fora de cogitação. Tenho amigos que, seguindo orientação rabínica, não entram em sinagogas de outras linhas ainda que o motivo seja para assistir uma palestra ou participar de uma cerimônia não religiosa.

O tema merece maiores reflexões judaicas e gera grandes debates. Fato é que, mesmo não sabendo de todos os detalhes a respeito da unificação, não consigo enxergar a atitude de Yossi Prager como um retrocesso ou algo maléfico para o judaísmo. Algo me diz que este é o caminho, que devemos focar no que temos em comum.

Ao longo de toda História tivemos diferentes tipos de judeus e intensos conflitos internos entre pessoas que não admitiam outras opiniões e visões, gerando discórdias e fortificando a desunião. Até quando tais entraves perdurarão? Para que?

Tive a oportunidade de interrogar o grande rabino Jonathan Sacks sobre esse assunto há dois anos. Perguntei se é correto organizar eventos em conjunto com sinagogas diferentes. Ele respondeu que ele mesmo comemora Yom Haatzmaut ao lado de uma rabina reformista e que não há qualquer problema nisso. Quando ressaltei que há muitos rabinos que desaprovam tal conduta, sua resposta foi emblemática: “nem todas as vezes a opinião dos rabinos é a vontade de Hashem”.

Não sei se é a vontade de D’us que instituições diferentes se unam para criar uma rede de 350 escolas cuja missão é proporcionar educação judaica da melhor qualidade, respeitando as diferentes linhas do judaísmo contemporâneo.

Certo é que, para a parceria funcionar e a união florescer sem atritos, muita ajuda divina será necessária.

 

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Resposta ao Manifesto “Chega de mortes – pelo fim da ocupação”

israeli flagCircula na internet um asqueroso manifesto assinado por entidades e indivíduos judeus exigindo o fim da ocupação na Palestina, em resposta à recente onda de violência em Israel. A notícia foi divulgada no site da Opera Mundi[1], curiosamente administrado por Breno Altman, um dos integrantes da chamada ‘rede global de judeus’ que assina o manifesto.  Os outros brasileiros signatários, salvo engano, são os mesmos que protestaram no Consulado de Israel no último conflito em Gaza, manifestação que coincidentemente foi divulgada pelo mesmo Opera Mundi.

O responsável por traduzir o texto para o português adotou a ridícula moda ortográfica imposta pelo movimento esquerdita/feminista, suprimindo o gênero dos substantivos.  Assim, lemos ‘Palestinxs’ ao invés de ‘Palestinos’, pois a ideia é referir-se a palestinos e palestinas. De que forma devemos pronunciar? Isso, para os militantes, não é relevante. O que importa é “acabar com a discriminação de gênero”, “extirpar o machismo da sociedade”, e impor a própria ideologia na gramática portuguesa. Estupidez à parte, o que interessa para a presente análise não são as letras e sim as palavras.

Transcrevo abaixo o manifesto na íntegra, adicionando meus comentários e respostas ao final de cada parágrafo, sempre dirigidas àqueles que o redigiram e assinaram.

CHEGA DE MORTES – PELO FIM DA OCUPAÇÃO

O título já evidencia a associação equivocada que vocês fazem entre a recente onda de violência em Israel e a denominada ocupação dos territórios palestinos, revelando desde já a ingenuidade em partir do pressuposto que o fim das mortes depende apenas do fim da ‘opressão israelense’.  Pior: vocês sequer complementam ‘fim da ocupação e fim do terrorismo’, ou ‘fim da ocupação e fim do islamismo radical’. Basta eliminar o mal principal, a suposta fonte de todas as tragédias contra o povo palestino: a ocupação israelense. Aos palestinos, por essa lógica, não deve ser imputada qualquer culpa ou responsabilidade, tendo em vista que as mortes – leia-se esfaqueamentos e atropelamentos de civis – constituem a forma legítima de lutar contra a ocupação indevida.

Prossegue o manifesto:

“Nós, membrxs de comunidades judaicas ao redor do mundo, estamos horrorizadxs pela violência que tem varrido as ruas da Palestina/Israel, custando a vida de mais de 30 pessoas, tanto palestinos como israelenses, nas últimas duas semanas. Uma menina de dois anos em Gaza foi a mais jovem das quatro crianças palestinas mortas nesse período. Um garoto israelense de treze anos está em situação crítica após levar doze facadas. Mais de mil pessoas foram feridas neste período. O medo tomou por completo as ruas de Jerusalém, centro de toda essa violência. Israelenses atirando em manifestantes palestinos em Jerusalém Oriental e seus arredores. Palestinxs esfaqueando e atirando em civis e policiais israelenses nas ruas. Forças israelenses matando palestinxs suspeitos em crimes sem julgamento prévio, mesmo quando elxs claramente não representam uma ameaça. Palestinxs jogando pedras em carros. Gangues de israelenses batendo em palestinxs, ou pedindo à polícia que atire nelxs. Palestinxs sujeitadxs a revistas humilhantes nas ruas – tudo isso tem se tornado rotineiro na cidade onde fomos educadxs a rezar pela paz, assim como em outros lugares de Israel, Gaza e Cisjordânia.
Enquanto a violência é visível nas ruas, ela também ocupa os corações e mentes de todxs. O medo está revelando o pior das pessoas, demandando mais derramamento de sangue, como se isso fosse reparar o dano feito. O medo e a retórica racista estão escalonando a situação. Mais uma vez, o governo israelense responde com o poder militar: centenas de pessoas foram detidas; o acesso palestino à Esplanada das Mesquitas, onde se encontra a Mesquita de Al-Aqsa, foi restringido; o acesso à parte do bairro muçulmano da cidade velha de Jerusalém foi proibido axs palestinxs; regras de abrir fogo foram alteradas para permitir que franco atiradorxs abram fogo contra crianças; foi estabelecida uma sentença mínima para aquelxs que atirassem pedras, afetando mais de 150 crianças que foram presas somente em Jerusalém Oriental nessas últimas semanas; e já existem propostas para impor um toque de recolher, ou mesmo o cerco à Jerusalém Oriental.

Vocês, como “membxs de comunidades judaicas ao redor do mundo” dizem sentir-se ‘horrorizados’ pela violência. Para contextualizar o leitor, realizam uma recapitulação dos fatos.

Costuma-se usar o termo ‘desproporcional’ para descrever o uso da força desse conflito. Ora, desproporcional é a parcialidade do manifesto, que se assemelha à palhaçada que temos visto nos jornais nas últimas semanas. Sublinhei as perdas israelenses e coloquei em negrito as menções ao sofrimento dos palestinos, apenas para ilustrar a maneira absurda que vocês apresentam a situação.

 Há uma clara e evidente intenção de deturpar os fatos e expor apenas os que interessam à versão de vocês, de forma tendenciosa e injusta. Vocês contam apenas um dos lados da história, o sangue que alimenta a ideologia de vocês passa a valer mais do que o sangue que a contraria.  Muitas das medidas citadas no parágrafo ocorreram justamente em razão da violência palestina, são a consequência de uma série ininterrupta de ataques e esfaqueamentos. Por que invertem os fatos?  Por que não compreendem que é legítimo um país se defender e que qualquer Estado em sã consciência jamais aceitaria um massacre de sua nação? É tão difícil deduzir que o acesso irrestrito a todos os locais viabilizaria mais ataques, por exemplo? Por que vocês, como judeus, ignoram a morte de membros do seu povo? Se não ignoram, por que a consideram secundária? Por que condenam apenas os israelenses?

Questiono à vocês o já questionava Shylok, personagem de Shakespare na obra Mercador de Veneza: Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Parece que vocês, apesar de fazerem parte do povo judeu, responderam NÃO. Não importa que a vida de seus semelhantes seja ceifada cotidianamente, não é relevante que civis inocentes sejam esfaqueados nas ruas ou atropelados por caminhões de palestinos à luz do dia, é indiferente se líderes muçulmanos educam para a paz ou pregam a destruição do nosso povo, não lhes interessa se terroristas são condenados por autoridades palestinas ou se a comunidade islâmica venera e glorifica os assassinos. O que realmente importa é condenar a legítima defesa israelense, protestar contra a reação e medidas de segurança do exército, desprezar a política israelense e ignorar a relação causa-consequência no conflito, culpando os judeus israelenses pela sua própria morte.

Vocês então concluem o argumento:

“Tudo isso constitui uma punição coletiva à população palestina de Jerusalém Oriental, mais de  300.000 habitantes. No passado, medidas como estas provaram-se ineficazes em dar fim à violência. Décadas de desapropriação, ocupação e discriminação são a principal razão da resistência palestina.”

A primeira dúvida que surge é: ao mencionar resistência palestina vocês realmente desconhecem os fatos e não sabem que muitos dos ataques à facas foram cometidos por árabes israelenses – e não árabes palestinos? Ou será que, munidos má-fé, preferem ocultar do leitor esse pequeno detalhe e classificar todo árabe como palestino?  E, mesmo se todos fossem palestinos, como alguém que conhece o mínimo de História ousa afirmar que a ocupação e discriminação são a principal razão da resistência?! Não foi a ocupação da Cisjordânia de 1967 que levou árabes de Jerusalém a assassinar civis. Entre 1948 e 1967 não tivemos paz. A Organização para Libertação da Palestina foi criada antes da Guerra dos Seis Dias! Judeus eram esfaqueados e massacrados em Hevron antes mesmo da proposta de partilha da Palestina de 1947! Em 2005, Israel retirou-se unilateralmente de Gaza, encerrando sua política de ‘desapropriação, ocupação e discriminação’. O resultado? A ‘resistência palestina’ só aumentou e o sul de Israel foi bombardeado com milhares de mísseis, provando que o objetivo verdadeiro vai ao encontro com o previsto no Estatuto do Hamas: varrer Israel do mapa e expulsar todos judeus da região. Causa espanto que vocês, como membros da comunidade judaica, sejam vítimas desta falácia e pregam esse mito como a verdade absoluta. Não, queridos judeus: não é a ocupação de seus compatriotas israelenses que causa a violência palestina. Ela é muito mais antiga e tem suas raízes em outros fatores. E mais: as mortes não têm ocorrido na Cisjordânia, vulgo território palestino, locam onde vocês poderiam taxar a ação de terroristas contra colonos de ‘compreensível’! O terror tem invadido cidades que são reconhecidas como parte de Israel pela comunidade internacional – Jerusalém Ocidental, Raanana, Beer Sheva, Tel Aviv! O que isso significa? Deixo para vocês refletirem.

Por fim, vocês adicionam um bonito e pacífico encerramento:

“Mais repressão militar israelense e a contínua ocupação e cerco nunca cessarão o desejo palestino por liberdade e tampouco tocarão as reais causas da violência. Pelo contrário, as atuais ações do governo e do exército de Israel criarão mais violência, destruição, e o entrincheiramento dessa divisão. Apenas justiça e igualdade a todxs trarão paz e tranquilidade axs habitantes da Palestina e de Israel.”

Já que as ações atuais não estancarão a violência dos terroristas, questiono: Qual é a solução para proteger civis israelenses? Como podemos interromper a rotina de esfaqueamos nas ruas? Se vocês fossem responsáveis pela segurança do Estado de Israel, como reagiriam, quais políticas adotariam? Se Israel resolvesse interromper as medidas de segurança e simplesmente falasse “promoveremos justiça e igualdade”, vocês andariam tranquilamente pelas ruas de Jerusalém? Realmente acreditam que não haveriam mais ataques? A simplista e infantil solução “promover a justiça e igualdade” ultrapassa os limites da ingenuidade tosca para adequar-se ao adjetivo de patética. A realidade não pode ser ignorada ou deturpada: judeus estão sendo atacados em seu próprio país apenas por serem judeus e, ao menos que existam efetivos mecanismos de controle, prevenção e repressão, o simples desejo de justiça e igualdade não trará nem paz nem tranquilidade.  Falar na teoria é tão fácil quanto apresentar soluções vagas e abstratas.  Israel tentou fazer a paz em diversas ocasiões. Logo após o final da Guerra dos Seis Dias, Israel ouviu os três Nãos dos palestinos: não reconhecimento de Israel, não às negociações com Israel e não à paz com Israel. Palestinos condenaram o tratado de paz entre Israel e Egito. Israel ainda tentou fazer a paz através dos Tratados de Oslo na década de 90 e depois ofereceu quase 100% do território reivindicado pelos palestinos em Camp David (2001), propondo o fim da ‘ocupação’. A resposta dos palestinos? Intifada e atentados terroristas. Novamente recusaram um Estado, assim como recusaram em 1947 e 1937 e optaram por derramamento de sangue. Uma frase bonita e louvável não impedirá que a violência e o terror continuem se espalhando. É preciso tomar providências práticas que enfrentem a situação de forma direta e garantem a segurança de todos.

Prezados,

Minha conclusão é que a identidade judaica de vocês está fundamentada em suas próprias posições políticas anti-israelenses. Ser judeu, para vocês, equivale a ser contra o sionismo e mostrar isso para o mundo. A maneira de vocês se identificarem com o povo judeu é justamente através da constante autocrítica e do status em ser reconhecido como um “judeu dissidente”.

 É claro que Israel comete erros e os palestinos sofrem. Mas, na ótica de vocês, a realidade é simples e dicotômica: Israel é o mau, Palestina é o bem. Palestinos não costumam errar, e se eventualmente erram, Israel tem culpa.  Israelenses não costumam sofrer e, se eventualmente sofrem, são responsáveis. O manifesto condena Israel e exige fim da repressão e da punição. Porém, não gasta sequer uma linha para protestar contra as autoridades palestinas, não cobra dos palestinos o fim da violência, não exige, por exemplo, que eles aceitam um Estado Judeu nem que combatam o incitamento ao terrorismo, requisitos fundamentais para construir um processo de paz.

Vocês não me representam.

Vocês não representam a esmagadora maioria do povo judeu que, apesar de nem sempre defender o governo israelense, manifestam-se a favor do Estado de Israel, se esforçam em desmentir os mitos que deformam as raízes do conflito, se orgulham de ter um país que simboliza um milagre econômico, social e religioso, se emocionam ao cantar o Haitkvá, defendem seu país em âmbito acadêmico, criticam o jornalismo brasileiro parcial e tendencioso, reconhecem a importância de Israel para a comunidade judaica global, divulgam as invenções e tecnologias que israelenses desenvolvem nos campos da saúde, educação, comunicação e tantos outros, se entristecem quando Israel é alvo de atentados terroristas, se alegram quando conseguem contribuir um pouco com o desenvolvimento do país e, principalmente, sentem vergonha alheia quando leem declarações de outros judeus enraizadas na mentira e fundamentadas na ignorância.

[1]http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/42003/rede+global+de+judeus+lanca+manifesto+contra+a+ocupacao+israelense+na+palestina.shtml

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“Why I am a Jew” by Rabbi Jonathan Sacks

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CAMIB

tsedek

“Justiça, justiça perseguirás.” (Deut; 16:20)

Não é necessário estudar Direito ou ser dotado de profunda sabedoria jurídica para constatar a ineficiência e entupimento da máquina judiciária brasileira. Os tribunais do país estão sobrecarregados com milhares de processos, acumulados principalmente nas instâncias superiores. A estrutura da jurisdição estatal não comporta mais o constante ingresso de ações judiciais: um caso pode levar décadas para ser encerrado. A celeridade processual assemelha-se a uma utopia, sem qualquer efeito prático.

Em virtude do ônus exaustivo inerente à solução de qualquer litígio através do Poder Judiciária uma forma alternativa de dirimir de conflitos vem ganhando força e espaço no Brasil: a arbitragem[1].

Na arbitragem, as partes abdicam de seu direito de levar à questão ao judiciário e se comprometem a resolvê-la perante árbitros especialistas na área e previamente selecionados. Essa modalidade de resolução de conflito poderá ser utilizada apenas em decorrência da vontade de ambas as partes e somente em casos envolvendo direitos patrimoniais disponíveis, o que exclui questões que versam sobre Direito Penal, Direito Tributário, Direito de Família, etc. A sentença arbitral equivale à sentença judicial e pode ser executada como tal – em outras palavras, caso uma das partes não cumpra o que foi decidido pelos árbitros, a outra pode exigir ao Juiz de Direito que execute a decisão, obviamente sem sequer adentrar no mérito da questão, já previamente resolvida.

Como é sabido, este Blog tem intenção de realizar reflexões judaicas, e não jurídicas[2]. Logo, aonde entra o judaísmo? O judaísmo entra no Art. 2º, §1º da Lei de Arbitragem que determina que “poderão as partes escolher, livremente, as regras de direito que serão aplicadas na arbitragem, desde que não haja violação aos bons costumes e à ordem pública.”

Isso significa que as partes poderão escolher o direito civil italiano, o direito empresarial norueguês, ou qualquer outra legislação à sua livre escolha – inclusive a judaica! E esse é justamente o papel da Câmara de Arbitragem e Mediação Integrada do Brasil[3] (CAMIB), a primeira câmara que integra o Direito Brasileiro com o código de Direito Talmúdico. Tive a oportunidade de participar de uma palestra com um dos Rabinos – Árbitros responsáveis, Rav Ehud Kvin. Ele explicou que a Câmara foi formada há aproximadamente dois anos e eles usam como fonte o Talmud, o Mishne Torá e o Shulchan Aruch, obras-primas da Lei Judaica que contabilizam séculos de existência e regem todos os aspectos da vida humana, inclusive aqueles provenientes da revolução tecnológica.  Isso representa um avanço sem precedentes para todas as comunidades judaicas locais – as leis da Torá são formalmente reconhecidas pelo Estado Brasileiro!

É claro que o Beit Din – tribunal rabínico – sempre existiu e continuará existindo. Contudo, as decisões proferidas pelos rabinos poderiam ser simplesmente ignoradas e a parte vencedora não teria meios para exigir o cumprimento da decisão, como de fato ocorre com certa frequência. Agora, não mais: o que está decidido pelos árbitros vale como sentença judicial. Se o Tribunal Rabínico, apoiando-se numa Mishná do Tratado de Baba Kama, decide que a empresa X deve pagar R$ 1.000.000,00 à empresa Y, não cabe recurso ou ação judicial evocando a norma jurídica brasileira. A questão já está resolvida à luz do Direito Talmúdico e o papel do Juiz de Direito brasileiro será de apenas de zelar pelo cumprimento da sentença ‘mishnáica’ caso uma das partes se recuse a acatar a decisão, realizando, por exemplo, a penhora dos bens do devedor.

A sentença deve ser proferida no tempo previamente estipulado, é registrada em hebraico e depois traduzida para o português. Recebi de maneira informal um pequeno rascunho de um livro que comparará a Lei de Arbitragem com as Leis da Torá, relacionando os artigos da Lei nº 9.307/95 com o ‘artigo’ equivalente no Shulach Aruch, realizando um paralelo entre ambas que evidencia as semelhanças em comum e confere legitimidade à Arbitragem sob a ótica da Torá.

Uma coisa é os judeus gozarem de igualdade de direitos e não serem oficialmente discriminados, garantia já prevista na Constituição de muitos países civilizados. Outra muito diferente é suas leis serem soberanas, reconhecidas, válidas e aptas a afastar a jurisdição brasileira.

O crescente antissemitismo travestido de antissionismo assusta e ameaça o futuro dos judeus europeus do mundo inteiro. Recentemente, a Polícia Federal desmantelou uma rede brasileira que apoia e financia o terrorismo islâmico. Há elementos suficientes para justificar uma sombria previsão pessimista, aliada à crise econômica e política. Não obstante, não foram muitas as épocas em que o povo judeu desfrutou da liberdade contemporânea de praticar (ou deixar de praticar) o judaísmo e viver em igualdade como outros cidadãos. Há cem anos, era incogitável a existência e legitimação de um sistema de arbitragem talmúdico, em consonância com a lei vigente no país e reconhecido pelo ordenamento jurídico pátrio. Tal evolução merece destaque e é digna de aplausos.

Muitos refletem sobre o julgamento divino que ocorrerá na semana que vem, mas poucos dão importância aos julgamentos humanos. Que esse novo sistema de Beit Din possa ser registrado nos anais da História Judaica como um importante e bem-sucedido progresso da Kehilá brasileira e que das decisões Halachikás floresça-se justiça, emane-se sabedoria e colha-se a paz!

CAMIB

[1] A Lei nº 9.307/95 disciplina o instituto da Arbitragem – http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9307.htm

[2] Para ler artigos jurídicos acesse  http://albertodiwan.jusbrasil.com.br/

[3] http://www.camib.com.br/

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The Five Legged Table

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No post anterior, apresentei a teoria de Avraham Infeld de que judaísmo não é uma religião e sim a cultura de um povo judeu e que o conceito de “peoplehood” deve se sobrepor ao de religião. Conclui escrevendo que é a partir dessa premissa teórica que Infeld desenvolve um inovador projeto vinculado à continuidade judaica. É o que passo a expor.

De acordo com o autor, é necessário considerar que a vida judaica significativa é como uma mesa de cinco pernas e focar a educação / identidade / consciência judaica nessa mesa.

Uma mesa de cinco pernas pode se sustentar com quatro ou, no mínimo, com três pernas. Temos que examinar essas cinco e escolher ao menos três para incorporar em nossa vida. O número mínimo deve ser três, pois se eu escolho duas e você duas, não teremos nada em comum. Mas se cada um de nós escolhe três, apesar de diferentes, nós partilharemos algo. Esses são os componentes que fundamentam a identidade judaica ou, na metáfora, as cinco pernas da mesa:

  • Memória: Enquanto a História aprisiona-se no passado, a memória nos indica como o passado pode sedimentar nosso presente e direcionar nosso futuro. Nas palavras de Infeld, judeus não tem História, judeus possuem memória. Judaísmo é repleto de “zecher”, “tizkor”, “zikaron” – variados termos que nos obrigam a recordar, a lembrar e relembrar.

  • Família: Judeus são uma família, entrelaçados por um passado comum. A Torá nos chama de “Bnei Israel” – filhos de Israel. Como em toda família, há brigas e discussões porém em um âmbito intimo, permeado pela certeza de pertencimento. A pessoa não escolhe ser ou não ser parte de uma família, tal como não escolhe ser ou não ser judeu e, em ambos os casos, não pode mudar isso mesmo que queira.

  • Aliança: No Monte Sinai o povo judeu realizou um pacto com D’us pelo qual nos comprometemos a reconhecer D’us e o monoteísmo, a cumprir os mandamentos (mitzvot), e transformar o mundo num lugar melhor (tikun olam). É o que muitos enxergam como ser um judeu observante.

  • Hebraico: Judeus rezam em hebraico não porque D’us não entende outra língua mas porque é o idioma que transmite a cultura de um povo para a próxima geração. O idioma hebraico constitui uma dos principais alicerces do povo judeu e traduz valores judaicos pela própria estrutura das expressões e palavras, um dos mais antigos idiomas do mundo que se revigorou e ressuscitou.

  • Israel: A Terra de Israel e o Estado de Israel são um dos centros da vida judaica atual. Em sua terra natal o povo judeu escreverá os principais capítulos de sua história. É em Israel que o judaísmo pode florescer em caráter nacional, e que a pátria judaica ergue-se após milhares de anos de exílio. Morar no Estado Judeu ou, em menor dimensão, identificar-se com ele e defende-lo deve ser um dever moral de todo jovem judeu.

A análise é inteligente e, de fato, engloba diversos aspectos do judaísmo. Gosto particularmente da possibilidade de escolher as ‘pernas’, respeitando-se a personalidade individual de cada um e seus respectivos talentos e falhas. Uma comunidade judaica comprometida em transmitir à próxima geração –  em âmbito formal e informal – a importância dessa ‘mesa’ e a maneira pela qual podemos aplicar e vivenciar esses conceitos certamente terá um futuro judaico promissor.

PARA SABER MAIS SOBRE AS CINCO PERNAS E AVRAHAM INFELD:

https://www.youtube.com/user/5leggedtable

http://5leggedtable.wix.com/5leggedtable#!about/cjg9

http://5leggedtable.blogspot.co.il/

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Religião judaica?

Rituais, símbolos, história, cultura, origens, costumes, gastronomia, literatura, filosofia, genealogia e outras dezenas de aspectos da vida judaica são apresentados ao visitante que percorre o primeiro andar do Jewish Museum em Londres.

‘What is judaism? Judaism is the religion and the way of life of the jews’.

Este é um dos primeiros anúncios do museu, o que me fez lembrar de um incrível discurso que escutei do Sr. Avraham Infeld, Presidente Emérito do Hilel, em um seminário da organização realizado em agosto de 2013 no Rio de Janeiro. Assim que a palestra acabou tive a intenção de transcrever a ideias extraídas para este Blog, o que faço agora,  antes tarde do que nunca.

Por que uma definição simples de judaísmo me fez lembrar de uma palestra ocorrida há 2 anos? Porque o auge da palestra de Infeld se deu quando ele bradou pausadamente em alto e bom som de forma enérgica: Judaism is not a religion! Judaism is the culture of the jewish people. A partir dessa sentença ele passou a expor os motivos que sustentam sua tese, contrária à do museu, de porque o judaísmo não deve ser considerado uma religião.  Esse papo de “judaísmo cultural” não foi novidade para mim. Já ouvi ideias semelhantes em diversas ocasiões. O grande destaque é que foi a primeira vez que escutei um senhor religioso, de kipá, observante da Torá, defender essa posição.

Sua primeira prova remete ao contraste entre judeus americanos e israelenses. Em suas palestras, Infeld costuma apresentar ao público uma tabela com três colunas. A primeira – maçã, pera, morango. A segunda – pepino, alface, rúcula. A terceira – judeu. A plateia deve completar a terceira coluna. Entre os americanos, 200.000 responderam como responderiam os brasileiros: judeu, cristão, muçulmano. Contudo, nenhum dos 40.000 israelenses completou a tabela dessa forma. Suas respostas foram unanimemente diferentes: judeu, árabe, americano. Isso revela que o povo judeu está totalmente confuso quanto a sua identidade. Quem está certo? Segundo Infeld, nenhum dos dois.

A religião judaica e o nacionalismo judaico surgiram na mesma época. Quando os judeus foram emancipados e puderam sair dos guetos um grupo entendeu que os judeus deveriam ter um próprio estado como as outras nações, originando-se assim o sionismo. Outro grupo interpretou que os judeus poderiam viver nas sociedades europeias da mesma forma que os cristãos, desde que não aceitassem o deus deles, originando-se assim a religião judaica.

Isso significa que antes do século XIX nunca existiu uma religião judaica. Os judeus eram considerados um povo e auto-denominavam como povo. Existe um povo muçulmano? Um povo budista? Um povo católico? Não. Mas existe um povo judeu, aliás constantemente somos chamados de AM Israel. A tese faz sentido.

Relembramos a saída do Egito pois foi esse episódio que nos transformou de um aglomerado de indivíduos em um povo, um povo que fez uma aliança com D’us para a eternidade. Quando Ruth converteu-se ao judaísmo a primeira coisa que disse foi “amecha, ami” – seu povo é meu povo, antes de proferir “seu D’ us é meu D’us”. Para ser judeu, primeiro precisamos nos sentir parte do povo, antes mesmo de exercer a religião judaica.

Em 1801, Napoleão Bonaparte encarregou o Ministro de Culto francês, Portalis, de preparar um relatório sobre as relações entre a religião judaica e o Estado. Em abril de 1802 Portalis leu diante da Assembleia Legislativa: “o governo cuida da organização de diversos cultos e tem também em conta a religião judaica, ela deve ser livre como as demais crenças conforme estabelece nossa lei. Porém os judeus, antes de uma religião, constituem um povo, vivem entre as nações sem se mesclar com elas.”

O que Haman disse a Achashverosh há 2000 anos? Como ele nos apresentou? Copio e colo o 8º passuk do 3º Capítulo: “Disse, então, Haman ao rei Achashverosh: Existe um povo, espalhado e disperso, dentre os demais povos de todas as províncias de teu reino, cujas leis são diferentes de qualquer outro povo, e que não cumpre as leis do rei; pelo que não convém ao rei conservá-lo”. Ele não afirmou ‘há uma religião ou uma fé diferente da que defende vosso reino’! Ele referiu-se ao conceito de povo!

Quando D’us faz uma promessa a Avraham ele não diz ‘e sairá de ti uma grande ideologia, fé, religião, crença’. Ele diz ‘farei de ti um POVO grande’. AM Israel Chai. O movimento charedi pode alegar que nossa essência é a religião. O movimento sionista pode alegar que nossa essência é uma nação. O movimento nazista pode alegar que nossa essência e é uma raça. Mas nós somos, antes de tudo, um povo. E é claro que isso não exclui uma cultura, um idioma, uma pátria.

Se o principal fosse a religião, seríamos indiferentes quanto o que ocorre com os judeus nas outras partes do mundo, simplesmente não seria do nosso interesse. Por acaso um muçulmano da Síria se identifica com um da Arábia Saudita? Pelo contrário, dependendo do caso eles podem vir a se matar! Mas os judeus não. Os judeus possuem o elemento “peoplehood”, intraduzível ao português. Se houvesse apenas a religião judaica qual seria o problema de casar-se com alguém de outra fé e cada um segue sua vida acreditando em suas crenças pessoais?

Não são poucos os argumentos que identifiquei que podem sustentar a ideia de povo. Mas Infeld vai mais longe: ele entende que a razão pela qual tantos judeus estão afastados do judaísmo e desinteressados é justamente essa concepção religiosa! De acordo com ele, insistir na existência de uma religião judaica está trazendo malefícios ao povo judeu, além de proporcionar denominações e subdivisões religiosas, desunião e carregar um sentido negativista. Apenas quando o conceito de povo for estabelecido, em detrimento do aspecto religioso, é que veremos mais judeus identificados com o judaísmo e ativos no mundo judaico. O interessante novamente é que as ideias não provem de um judeu ateu e laico e sim de um ortodoxo que cumpre as mitzvot.

Você pode pensar que isso tudo é um assunto a ser debatido no mundo das ideias, que é uma bela reflexão judaica sem consequências práticas. Contudo, é a partir dessa premissa teórica que Infeld desenvolve um inovador projeto vinculado à continuidade judaica. Não preciso nem dizer que não se trata de um kiruv ou aproximação religiosa por meio de yeshivot. É o que será abordado no próximo texto.

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