Pessach Kasher Ve SAMEACH

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Encerram-se, enfim, as 48 horas de Yom Tov de Pessach, dias sagrados da festividade. Assim como na maioria das festas judaicas, não podemos praticar as 39 ações vedadas no Shabat[1]. Destaca-se, entre elas, a proibição de acender fogo, que se estende ao conceito de energia elétrica para proibir qualquer contato com aparelhos eletrônicos. Na teoria tudo é muito bonito. Nesses dias, nos desconectamos do cotidiano para cumprir com o mandamento divino de descansar, não executamos qualquer atividade criativa, nos reunimos com nossos familiares, celebramos as históricas festas judaicas, vamos à sinagoga, rezamos e nos aproximamos de Deus.

Na prática, porém, por mais paradoxal que possa ser, o descanso cansa bastante.

A sequência comer-rezar-dormir amolece nossos corpos e instiga a fadiga. A preguiça gera mais preguiça e em pouco tempo nos tornamos cansados do ócio, nos sentimos pesados, um pouco sonolentos, talvez um pouco cansados da rotina espiritual. Ternos, gravatas e longos vestidos contradizem o sol escaldante e os 30ºC lá fora apenas intensificam a sensação de fraqueza, calor, inchaço, cansaço.

Nesse ano, o 1º dia de Pessach coincidiu com Shabat. Há anos, porém, que Pessach tem início na quarta-feira e logo quando termina é seguido do Shabat, onde temos mais rezas, mais comidas, mais ternos.

Esses dias, para aqueles que respeitam as leis mas ainda são incapazes de apreciá-las como se deve, são acompanhados por certo tédio, o que era para ser belo e revigorante torna-se um pequeno fardo, ou, como dizem muitos, um ‘rolê’[2].

Nosso grande desafio é saber transformar o Yom Tov e as festas judaicas em geral em algo verdadeiramente significativo, agradável, esperado e encantador. É aprender a vivenciar as experiências do calendário judaico de maneira intensa e leve ao mesmo tempo, de forma que obedeça a lei judaica, mas também seja algo que nós aproveitamos e saboreamos internamente. Pessach é a festa da Liberdade. Quantos de nós realmente nos sentimos livres? Sukot é a festa da alegria. Quantos de nós realmente nos sentimos alegres?

Um dos intuitos da Hagadá é transmitir a história do êxodo às crianças. Será que realmente cumprimos com esse mandamento ou apenas lemos a narrativa em um hebraico complexo enquanto os menores contemplam passivamente, ora agitados, ora com sono, o transcorrer da longa cerimônia? Talvez faria mais sentido assistir ao divertido musical O Príncipe do Egito, da DreamWorks Animations, com pipoca Kasher le Pessach e refrigerante Xereta à vontade?

O objetivo do costume de reclinar-se 45º à esquerda é para nos fazer sentir como reis. Será que realmente personificamos um monarca ou na realidade achamos a posição desconfortável e, dependendo da cadeira, uma injustiça com nossas costelas? Talvez faria mais sentido utilizar puffs, fons e almofadas?

A lei judaica não precisa de reforma. Mas criatividade na forma pela qual a cumprimos e a inovação ao vivenciar o judaísmo são ingredientes bem-vindos. Mais do que isso, talvez sejam indispensáveis. Tais como as tradições judaicas, o ânimo e o entusiasmo pelo judaísmo também são transmitidos de geração em geração. Até quando nossos descendentes estarão dispostos a sacrificar sua rotina em homenagem a um “conjunto de obrigações e afazeres” carentes de sentido e significado, que pouco agregam em suas vidas? Somente se cumprirmos os mandamentos com vontade, alegria, bom humor poderemos garantir sua continuidade, através do exemplo pessoal. De nada adianta cumprir com a festa judaica e com a tradição de forma mecânica, automática e robótica, sem demonstrar envolvimento sentimental, empatia e sensibilidade.

Nos dias de hoje, em que é tão fácil praticar ou deixar de praticar o judaísmo, em que a identidade já não é algo inato, sólido e eterno, em que há vasto acesso à informação, e em que as mudanças atingem recordes de velocidade; nos dias de hoje, em que a sociedade maior é aberta e as minorias são bem absolutamente livres para assimilar-se, em que a homogeneização cultural predomina, em que nenhum valor ou princípio é inquestionável e em que nenhum dogma é irrefutável, urge-se, pela primeira vez, a questão de porquê ser judeu, e não apenas como ser judeu.

Somente respondendo a essa pergunta – e revendo a maneira pela qual vivenciamos o judaísmo – teremos certeza que em 2016 ainda haverá um Seder de Pessach vibrante e significativo.


[1] Com exceção de algumas proibições, como carregar ou cozinhar.
[2] É claro que há aqueles abençoados com uma percepção mais elevada e consegue captar e interiorizar o descanso do Yom Tov. De outro lado, há aqueles completamente desconectados das tradições judaicas, que pouco se importam com as festividades. Portanto, é importante concluir desde já que esta análise não se aplica a muitos setores da comunidade judaica, a fim de evitar, nos comentários, uma acusação de “generalização” ou a publicação de que “este texto não me representa”.
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Mais que 1.000 palavras

– Para de brigar, isso é coisa de judeu. Não pega esse produto do mercado sem pagar, isso é coisa de judeu.

– Como um judeu falou com você!? Judeu não gosta de negros!

Essas foram algumas das revelações que escutei hoje dos moradores da periferia de São Paulo. Infelizmente, parte dos habitantes da região é imbuída de preconceitos e estereótipos sobre o povo judeu ainda durante a infância, através das frases e comentários supratranscritos. A ausência de conhecimento e o distante contato direto com o judaísmo são fatores que agravam tais imagens negativas. O contrário certamente também se aplica. Quantos de nós resguardam preconceitos – ainda que implícitos e submersos – contra outras minorias?

Participei hoje de um evento beneficente coordenado pelo Moré Ventura, rabino e ativista social. Fomos até o Jardim Ângela e lá doamos aos moradores o que foi coletado na campanha de doação do Chametz. Além de mim, outros jovens e principalmente crianças da comunidade judaica participaram da ação. Primeiramente, conhecemos a instituição Talento Jovem, que oferece assistência a comunidade local. Lá conversamos com os voluntários, numa dinâmica em grupo e individual. Posteriormente, fomos conhecer a creche municipal, que cuida de centenas de crianças, e passeamos pelas ruazinhas e casas que perfazem um cenário absolutamente destoante da nossa realidade. Tive a oportunidade de conversar pessoalmente e por um bom tempo com uma professora de escola pública, com a coordenadora da creche e com um dos diretores da Talento Jovem. Por fim, separamos os alimentos e distribuímos à aproximadamente 30 famílias da região.

O dia foi recheado de aprendizagens. A primeira delas, conhecer in loco os problemas enfrentados por grande parte da população brasileira, conversar pessoalmente com lideranças da região, ouvir, debater, ver com os próprios olhos o drama da questão social e a profundidade das privações materiais.

Jardim Ângela, one of the most violent suburbs of São Paulo.

Jardim Ângela.

A segunda grande lição foi justamente aprender, através do diálogo, a quebrar os falsos muros ideológicos que dividem a sociedade entre “nós” e “eles”, conflito artificial que muito se agravou nos últimos tempos em razão do caos político que assola o país, principalmente através do discurso político.

 A terceira – talvez a mais marcante – foi constatar a existência de pessoas que vivem lá em condições socioeconômicas limitadas e que mesmo assim não abrem mão de investir seu esforço, energia, dedicação e muitas vezes o próprio orçamento financeiro para fazer o bem e ajudar o próximo. Pessoas que poderiam muito bem alegar que não possuem condições para prestar qualquer serviço voluntário, que poderiam argumentar que precisam primeiramente cuidar de si mesmas e pensar em suas famílias, que poderiam apenas abdicar-se de se envolver dizendo somente “é triste mesmo, mas nada posso fazer para consertar, estou quase na mesma”; enfim, pessoas que vivem na região e cuja sorte não lhes sorriu na mesma proporção que sorriu para mim e para você, pessoas assim dedicando-se plenamente ao outro, esforçando-se para prestar todo tipo de auxílio possível, fazendo sua parte, praticando de forma voluntária o ativismo e a beneficência, através da assistência social, da compaixão, do carinho, da pura vontade de fazer o bem e ser protagonista da mudança. Verdadeiros heróis.

A quarta lição – a que faz jus ao nome deste blog – foi conscientizar-se do caráter judaico da ação promovida. Foi ir lá com um rabino e com membros do movimento Bnei Akiva, mostrar o lado social do judaísmo e sua interação com a sociedade maior. Na obra “Para curar um mundo fraturado”, Rav Jonathan Sacks opina que “estamos aqui para fazer a diferença, um dia de cada vez, um ato de cada vez, durante o tempo que for preciso para tornar o mundo um lugar de justiça e compaixão” e também que “ é por nossos atos que conseguimos expressar nossa fé e torná-la real na vida dos outros e do mundo”. Da mesma forma, o próprio título de seu mais novo livro já resume bem a ideia por trás da ação de hoje no Jardim Ângela – “A Judaism Engaged With The World”.  O ex-Rabino Chefe da Commonwealth defende a ideia, para mim irrefutável, que um judaísmo divorciado da sociedade maior será um judaísmo incapaz de influenciar a sociedade ou inspirar jovens judeus. É claro que doar alimentos para 30 famílias é uma ação mínima como uma agulha em um palheiro, mas suas consequências podem ser exponenciais e multiplicadoras.a-judaism-engaged-with-the-world-cover

Mais do que isso, ações como essa possuem, no mínimo, um efeito tridimensional: cumprem na prática os mandamentos de tsedaká, chessed, rachamim, tikun olam e tantos outros que fundamentam a prática do bem, aprimoram a imagem dos judeus e do judaísmo perante a sociedade maior contradizendo ideias preconceituosas e o antissemitismo, e por fim, servem como combustível para motivar a aproximação de judeus desfilados de seu povo que passam e identificar-se com o judaísmo e as práticas da comunidade judaica. Enfim, passam a sentir-se orgulhosos de serem judeus.

Um pequeno gesto tem o potencial de produzir grande impacto. Não é à toa que uma ação vale mais que 1.000 palavras!

 

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8 motivos para apoiar o processo contra a EL-AL

Renee Rabinowitz ocupou manchetes de jornais como The New York Times  e The Guardian nas últimas semanas ao decidir processar a companhia área EL Al por sexismo.

A narrativa é simples: Renee estava confortavelmente acomodada em seu assento na classe executiva em um voo entre Israel e EUA quando foi abordada por uma aeromoça que pediu que trocasse de lugar. Renne foi conduzida a outro assento próximo a duas pessoas que estavam conversando em voz alta. Não gostou da nova localização e questionou a comissária de bordo por quê deveria mudar de lugar. A aeromoça afirmou que solicitação havia sido formulada pelo passageiro que sentava a seu lado, um haredi de aproximadamente 50 anos, que alegou não ser permitido sentar-se ao lado de mulheres.

Tais fatos motivaram o processo em face da companhia aérea: Renne alega que foi vítima de discriminação em razão do gênero e sentiu-se diminuída e desprezada.

Abra-se um parêntese para registrar alguns pontos peculiares da biografia da sra. Rabinowitz que merecem ser destacados:

 – Idade: 81 anos.

– Vida matrimonial: casou duas vezes e atualmente é viúva. Ambos os maridos eram rabinos.

– Vida acadêmica: estudou em uma escola judaica ortodoxa em Nova York. Posteriormente, obteve o título de PhD em Psicologia Educativa.

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Renee Rabinowitz, passageira que foi obrigada a trocar de lugar no avião da EL AL por ser mulher.

Voltemos. Após ser comunicada pela aeromoça que deveria trocar de lugar, Renne ainda tentou argumentar com o passageiro ultra-ortodoxo. “Por que você se importa? Tenho 81 anos”, ao passo que escutou a resposta “está na Torá”.

Está mesmo?

Tenho certeza que há pessoas que dirão que Renne Rabinowitz deveria respeitar a opinião do passageiro sem causar grandes transtornos, considerando que teve uma forte educação judaica e uma ampla vida religiosa e, portanto, conhece essa realidade. Ao processar a El-Al, dirão alguns, Renne tenta chamar atenção e presta um desfavor ao judaísmo, posto que divulgará os religiosos, e por consequência, a religião, como sendo machista, sexista, discriminatória, etc. Argumentarão que “roupa suja se lava em casa” e que tais notícias apenas “fomentam o antissemitismo e a imagem negativa dos judeus”. Dirão, ainda, que Renee interpretou os fatos de maneira errada, que o passageiro apenas quer o respeito à sua liberdade de religião e é obrigação da El-Al, companhia aérea de Israel, o Estado Judeu, assegurar a todos os passageiros a possibilidade de viajar de acordo com a estrita lei judaica.

Com todo respeito, não podemos concordar com esta visão.

Primeiro, não há lei alguma que proíba sentar-se ao lado de uma mulher em trens, ônibus, ou aviões, mormente quando a passageira é uma senhora de 81 anos. Renne inclusive citou decisões do eminente Rav Moshe Feinstein nesse sentido. Devemos, portanto, separar o que é o cumprimento estrito da lei do que é exagero e puro radicalismo.

Segundo, tais condutas devem ser divulgadas e a mulher não deve abaixar a cabeça, sob pena de concordância tácita (“quem cala consente”). Se o silêncio prosperar a situação poderá se agravar de maneira perigosa, a um ponto que sequer imaginamos.

Terceiro, processos judicias como este devem ser conhecidos para incentivar a voz de judeus religiosos, em nome da honra da Halachá. Judeus ortodoxos devem manifestar-se, dizer “not in my name” e deixar claro que atitudes como essa nos os representam e, principalmente, não representam o judaísmo, como de fato tem ocorrido nestes casos. Seria mais fácil – mas menos digno – agir por debaixo dos panos.

Quarto, o fato de Renne não ser adepta do reformismo ou laicismo apenas reforça a credibilidade e legitimidade da indignação. Isso não está sendo feito, como poderia se argumentar com referência ao movimento feminista do Kotel, apenas por provocação, para chamar a atenção e para desafiar a autoridade religiosa como um todo.

Quinto, qual outra companhia aérea aceitaria ser escrava de um determinado grupo de passageiros e obedecê-los cegamente? Por que alguns teriam o privilégio de escolher ao lado de quem se sentarão?  Imaginem a situação em qualquer outro cenário e verão qual absurda é a submissão da aeromoça e a discriminação autorizada.

Sexto, se o rabino realmente deseja se cuidar e suspeita que pode atrair-se sexualmente pela senhora de 81 anos e que seria melhor não arriscar um contato próximo, que ele procure um outro lugar, que ele busque uma outra opção sem incomodar a passageira ao seu lado.

Sétimo, se ele acha que é dever da mulher – e não dele – levantar-se e sair do lugar, que peça diretamente a ela gentilmente, que explique educadamente a situação, com decência e cortesia, e que não simplesmente ordene a comissária da EL AL que remova de seu lado a passageira.

Oitavo, será que incomodar uma senhora sobrevivente do holocausto e humilhá-la representa a vontade divina? Será que D’us não preferiria que alguém dedicado às mitzvot e à Torá fizesse kidush hashem e agisse com respeito, bom-senso e compreensão?

              Amanhã terá início a festa de Pessach. Que o processo contra a EL AL seja uma fonte de inspiração para refletir sobre todas dimensões da Liberdade. Chag sameach!

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Um breve ensaio sobre a verdadeira Liberdade

Pessach, a Festa da Liberdade, aproxima-se mais uma vez de nosso calendário.

Não são poucos os que menosprezam a importância fundamental da Liberdade ou carecem de uma visão ampla e profunda acerca de suas dimensões. Entendida muitas vezes como a simples ausência de coerção no direito de ir e vir, ou seja, a ausência de prisão carcerária ou escravidão, a Liberdade muitas vezes é reduzida apenas ao seu espectro físico. Nesse ponto, registre-se que, conforme Gandhi, “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.”.

Contudo, diante desse conceito limitado que vigora na maioria de nós e, considerando que vivemos em regimes democráticos que respeitam os direitos e garantias individuais básicos, esquecemos noções mais profundas acerca desse princípio basilar da condição humana.

Muitos filósofos, pensadores e estadistas contribuíram durante séculos com sua concepção de liberdade. Nasceram dessas ideias a corrente política liberal que engloba liberalismo econômico, o neoliberalismo, o libertarianismo, entre outras ramificações do princípio da Liberdade.

Não são essas modalidades de Liberdade que pretendo expor e analisar aqui.

A Liberdade da qual me refiro atina não com uma corrente filosófica, política, social ou econômica (apesar de ser fã de todas essas) e sim com o trecho de um famoso poema de William E. Henley cujo último verso preconiza: I am the master of my fate,I am the captain of my soul.

Quantos de nós somos donos do nosso próprio destino? Quantos de nós somos o capitão da nossa alma? Quantos exercemos de fato o direito à Liberdade?

Bronnie Ware, uma enfermeira australiana que auxiliava pacientes terminais, escreveu um livro narrando os cinco arrependimentos mais comuns antes das pessoas morrerem (The Top Five Regrets of the Dying).

No livro, a enfermeira conta que os pacientes foram abençoados com uma incrível clareza de pensamento no fim de suas vidas e que podemos aprender muito com esta sabedoria.

Qual é o arrependimento mais comum, o que liderou a lista? “Gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim”

É arrepiante constatar que tantas pessoas queixam-se ao final da vida de não terem sido plenamente livres. A infidelidade a si mesmo nada mais é do que a abstenção de exercer o direito à Liberdade! A Liberdade aqui escancarada é exatamente àquela que se referiu William E. Henley, no sentido de ser dono do destino e capitão da alma.

Nesse diapasão, poderemos começar a compreender a importância de ser livre e de viver nossas vidas com base no supremo princípio da Liberdade. Se nos mantivermos inertes e ignorarmos, em nossa tomada de decisões, a possível perda de Liberdade, estaremos condenados a viver uma vida com base apenas no que outros esperam de nós. Para gozarmos de uma existência digna e condizente com nosso caráter e personalidade únicos, precisaremos exercer a Liberdade em nosso cotidiano. O que nos diferencia dos animais é o fato de sermos seres pensantes e livres, seres que podem direcionar seus rumos, que podem escolher e decidir com base na razão ou na emoção, podem escolher o certo ou o errado, o fácil ou o difícil, com base em nosso próprio juízo de valor.

Se não tivermos coragem suficiente, se vivermos uma vida baseada em opiniões alheias que contrariam nosso desejo íntimo, se a supremacia da nossa individualidade não prosperar e se, por fim, nossas ações contradizerem nossa personalidade, então nosso destino estará fadado tanto à frustação convertida em arrependimento, quanto à tristeza convertida em angústia. Frustação convertida em arrependimento ao perceber o vazio da nossa existência, tristeza convertida em angústia por não ter forma de voltar atrás e por constatar que desperdiçamos a chance única de escrever nossa própria história no livro do mundo.

Rav Kook sintetiza de forma brilhante esta grande ideia:

“Quem é fiel a si mesmo – é um homem livre; e quem preenche sua vida apenas com o que é bom e belo aos olhos dos outros – é um escravo.”

Rav Adin Steinsaltz está em consonância com esta visão e a explica com mais detalhes:

“A liberdade é percebida com mais frequência como a ausência de escravidão – assim como a escravidão pode ser definida como a ausência de liberdade. Mas na realidade, a ausência de escravidão em si não cria uma condição de liberdade. A escravidão é uma condição na qual a pessoa é para sempre forçada a agir de acordo com a vontade de outro. Liberdade é a capacidade do ser humano de agir e expressar-se. Aquele que não possui o desejo da auto-expressão e realização independente – seja porque seu espírito foi alquebrado ou jamais se desenvolveu – não pode ser considerado um homem livre. Ele não é livre, apesar de não estar mais sendo fisicamente escravizado; é meramente um escravo abandonado – um escravo sem amo.”

Viktor Frankl, neurologista austríaco sobrevivente do Holocausto ensina que “pode-se tirar tudo de um homem exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.” Apesar de, pelo contexto fático que viveu, o autor referir-se a situações extremas de vida ou morte, a ideia pode ser traduzida também em decisões básicas do dia a dia, além de decisões mais relevantes que direcionam os caminhos que queremos trilhar.

A indecisão ou insegurança são, muitas vezes, sintomas de perda de liberdade. Sabemos o que realmente queremos, por qual caminho queremos seguir, qual rumo queremos traçar, mas ficamos indecisos e inseguros ao constatar que esse não seria o desejo que esperam de nós. Em outras palavras, a disputa não ocorre entre duas formas de pensar no âmago da nossa consciência e sim no conflito entre a nossa própria consciência e a dos outros. Teríamos muito mais confiança em nós mesmos se lembrássemos de que sem Liberdade genuína não há auto-realização e, portanto, não há como atingir a felicidade em sua plenitude.

Talvez é isso que Immanuel Kant quer dizer quando apresenta a ideia de que somos livres apenas quando agimos de acordo com nossa verdadeira natureza, e não sob domínio das paixões alheias. De forma semelhante, Martin Heidegger defende seu conceito de autenticidade (Eigentlichkeit) e que devemos viver por nós mesmos.

Passa despercebido de nós que o ponto em comum da biografia de líderes, pessoas bem-sucedidas, grandes referenciais e exemplos pessoais nos mais diversos campos e nas mais variadas áreas é justamente ter levado uma vida com base em decisões livres e autônomas, dando menos importância ao julgamento alheio e mais relevância às convicções pessoais, edificadas por um conjunto de valores e princípios que norteiam seus rumos de maneira independente em âmbito acadêmico, profissional, pessoal, político.

Desde o início da Idade Média, poucos momentos foram marcados por uma liberdade tão extravagante e ampla no campo coletivo e no espectro individual. Concomitantemente, nossas decisões são cada vez menos livres e autônomas, dependentes de “sábios conselhos” fornecidos por pessoas que na hora de opinar sobre a vida alheia aparentam ser pós-graduados em diversas áreas do conhecimento, mas que no momento de tomar as rédeas de seu próprio destino são fracas e confusas. Inteligentes são aqueles que, em momentos de aperto, induzem seu amigo a concluir e deduzir qual seria sua própria vontade pessoal, ao invés de impor um juízo prematuro, parcial e subjetivo. Uma autoridade – religiosa ou política – pode nos ajudar a enxergar uma situação sob outra ótica ou descobrir outro lado que não havíamos pensado. Mas jamais nos conduzir como rebanho, jamais aproveitar nosso fraco e sensível autoestima para nos dizer o que devemos ou não fazer, o que é o certo ou o que é o errado, como devemos agir, como devemos reagir.

Lembro que, há muitos anos, quando parei de usar eletricidade no shabat, minha avó me advertiu: “Se você não acende a luz no sábado porque você pensou com autonomia e concluiu que deve respeitar essa lei, e que isso é o correto e quer isso para você – ótimo. Se você só parou de ligar a luz apenas porque um rabino mandou e não pensou – eu não concordo com você.”

Ter humildade de escutar a opinião alheia e a levar em consideração é uma virtude. Mas submeter seu poder de escolha a alguém e parar de pensar por contra própria é uma fraqueza. Não sou eu o autor essa lógica. Todo este conceito de sucumbir nossa liberdade às opiniões ou pressões externas está enraizado na corrente filosófica existencialista de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvior, mais especificamente no conceito denominado mauvaise foi.

Se pararmos para pensar, todas conflitos, discussões e intrigas são originados no desrespeito à liberdade. Se todos compreendessem que nascemos com um direito inviolável de ser livres para pensar o que quisermos, defender o código moral que acreditamos, exercer a religião que desejarmos, sem coerção física ou emocional, nossos relacionamentos seriam mais harmônicos e a paz seria duradoura.

 Finalizo com um trecho da obra “Sobre a Liberdade”, escrita por John Stuart Mill em 1859:

“A proteção contra a tirania do magistrado não é suficiente, há necessidade de proteção também contra a tirania das opiniões, contra a tendência da sociedade em impor suas próprias ideias e práticas como regras de conduta para aqueles que discordam delas”.

 E sua conclusão:

“Há um limite para a interferência legítima da opinião coletiva na independência individual, e descobrir esse limite e protegê-lo contra o seu cerceamento é tão indispensável para a boa condução dos negócios humanos quanto a proteção contra o despotismo político.”

Uma perspectiva sobre a Liberdade bem diferente da comumente divulgada em Pessach…

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Exemplo e orgulho

Avraham, filho de Eliahou e Luna, nasceu em 1785 em Sidon (Saída), cidade próxima de Beirute, quando seu pai tinha 25 anos de idade. Sabemos que foi o primogênito da família pois carregava o nome do seu avô paterno. De seus pais Elyahou e Luna e seus ancestrais, sabemos somente que também viviam em Sidon. Seu único irmão menor, Yeshayahou, mudou-se para Tyre, na costa do mar mediterrâneo. Mas os filhos de Yossef, filho único de Yeshayahou, retornaram à sua cidade natal no século XIX. A família de fato estava enraizada em Sidon há várias gerações e lá permaneceram por um longo período, ainda quando a cidade estava sob o domínio do Império Otomano.

Voltemos a Avraham, para não expandir muito os ramos da árvore genealógica e não cansar a o leitor.

O censo Montefiore classificou Avraham como sendo um indivíduo pobre. Sua profissão, denominada em inglês como “peddler”, indica que ele vivia de esmolas e donativos. Talvez pedisse dinheiro nas ruas, talvez tivesse um pequeno e humilde comércio e ia de porta em porta tentar vender artigos baratos, talvez vivesse de favores na comunidade. Não sabemos, jamais saberemos ao certo.

A data registrada do nascimento de seu primeiro filho indica que ou Avraham casou-se muito tarde para os padrões de sua época (43 anos!) ou casou-se na faixa etária comum, mas sua esposa, Sara Dana, enfrentou dificuldades para engravidar, concebendo a criança somente após vários anos de vida matrimonial. Ou, é claro, outra possibilidade é que os dados e os registros estão incorretos. De qualquer forma, uma vez pai, a infeliz situação econômica de Avraham não constituiu obstáculo para criar mais filhos: o casal teve 5 meninos e 2 meninas, talvez porque Avraham sentiu falta de uma companhia fraternal durante sua juventude (lembre-se que seu único irmão Yeshayahou mudou-se para Tyre) e quisesse de certa forma compensar isso.

Ao filho primogênito foi dado o nome do avô (Eliahou), seguindo a tradição. Outro filho ganhou o nome do primo Yossef. Apesar da pobreza e da idade, Avraham logrou fornecer uma excelente educação aos filhos.  Eliahou, o mais velho, dedicou-se com mais afinco e amor ao judaísmo e obteve título de “Chacham” e “Rabbi”. No entanto, ao contrário da tendência atual, a formação rabínica não impediu Rabbi Eliahou de exercer uma profissão digna e ganhar seu próprio sustento – ele foi também um exímio comerciante de licores.

No entanto, o sucesso espiritual e material a princípio não coincidiu com sua vida familiar. Rabbi Eliahou casou-se com Rahlo e teve dois filhos. As fontes não esclarecem se houve um divórcio ou Rahlo faleceu. De qualquer forma, o matrimônio dissolveu-se e por cerca de 15 anos Rabbi Eliahou permaneceu solteiro.

Finalmente, quando tinha aproximadamente 40 anos, casou-se novamente com Rachel Sasson, que havia nascido em Bombai, Índia, mas que por alguma razão mudou-se para Sidon. Com ela, Rabbi Eliahou pôde ter mais 9 filhos.

Em 1897, Rabbi Eliahou faleceu com 64 anos de idade. Em sua lápide, registrou-se para a eternidade que ele foi um homem completo, dedicado à caridade e à bondade, além de um líder comunitário. Um de seus filhos do segundo casamento, Jacques, homenageou o bisavô (pai de Rabbi Eliahou) e deu o nome de Avraham a um de seus filhos.

Este Avraham, neto de Rabbi Eliahou, nasceu em 1922 em Sidon, mesma cidade de seus ascendentes, mas por diversas razões teve de mudar-se para o Brasil. Ele casou-se com Mirelle Saadia e teve três filhos: Jaky, Carol e Joja.

Jaky casou-se com Lina Dayan e juntos criaram este autor que vos escreve – mais um Avraham.

Todos meus ancestrais mencionados nesse texto carregam o sobrenome da nossa família – Diwan.

Avrahams Diwans vêm e vão e deixam a marca neste mundo há séculos. Tenho curiosidade de saber como viviam, o que pensavam, quais eram suas aspirações, suas decepções, suas alegrias. Meu neto Avraham Diwan deve chegar aqui por volta de 2060, quase 300 anos após o nascimento de Avraham Diwan, pai de Rabbi Eliahou.

Tive a feliz oportunidade de conviver com Avraham Diwan Z”L, meu avô, durante 15 anos. No último dia 20 de janeiro, completou-se 10 anos de seu falecimento, razão pela qual presto-lhe essa singela homenagem.

Lembro que, aos 80 anos, meu avô lia a Torá traduzida regularmente – o livro estava lá quando íamos jantar sexta-feira. Lembro de sua extensa sabedoria em tudo que se refere à saga do povo judeu e me recordo que todos ouvíamos com atenção suas narrativas da epopeia judaica ao longo da História. Tal paixão talvez nasceu originalmente em Rabbi Eliahou Diwan, foi passada para meu bisavô Jacques e este transmitiu para meu avô, que transmitiu ao meu pai e que me transmitiu, e, por fim, foi utilizada como combustível para criar este blog que hoje já conta com mais de 50 reflexões judaicas.

Me recordo que, quando fui fazer um teste vocacional durante o colegial, a orientadora disse que a profissão ideal era Jornalismo ou Direito e me perguntou se eu tinha algum jornalista na família. “Sim” – respondi – “meu avô era jornalista no Líbano”.  Ainda lembro do sorriso no rosto do meu avô ao ver os netos e juro que posso sentir suas mãos me cumprimentado nas noites de sexta-feira, desejando shabat shalom. Lembro que pedi aos meus pais que me deixassem vê-lo no hospital em uma de suas últimas visitas, mas eles acharam melhor que eu não presenciasse a cena. Lembro que quando o Rabino Laniado veio cortar um pedaço da roupa dos enlutados minha avó respondeu “Pode cortar, o coração já está cortado mesmo”.

Lembro que ele me abençoou no dia do meu Bar-Mitzvá e me presentou com um texto que até hoje está afixado no mural do meu quarto. Aliás, é o único presente que de fato me recordo e o mais pessoal. O texto repetiu as mesmas palavras que ele proferiu no vídeo do Bar Mitzvá e concluiu em negrito e maiúsculo: Seja um exemplo para teus irmãos e um orgulho para teus pais e avós. Ponto. Esta é a mensagem que meu avô quis passar. Este é o resumo de tudo, esta é a meta: ser um exemplo e um orgulho. Eis o dom de expressar muito dizendo pouco. Frase digna de uma outra reflexão judaica.

O Rav Jonathan Sacks, em sua obra Letter in the Scroll, explica que a família judaica é como um grande livro[1], que retrata a história de cada ancestral e onde podemos localizar nossos nomes. Nós saberíamos que fazemos parte de algo e que estamos no meio da jornada, não podemos abandonar o barco, a continuidade depende de nós. Nós faremos parte da história? Escreveremos nosso capítulo? Daremos o livro a nosso filho? Ou riscaremos nosso nome e abandonaremos a obra em um museu?

Terminaria aqui, com tais interrogações, mas não posso deixar de registrar a inspiração para esse texto. Conforme os leitores atentos lembrarão, Rabbi Eliahou teve duas esposas. Eu sou descendente da Rachel Sasson[2]. Mas essa semana conheci, através do Facebook, descendentes de Rahlo, a primeira esposa. O bisneto de Rabbi Eliahou e Rahlo chamava-se Joseph Diwan e também teve que sair de Sidon. Mudou-se para o Brasil e foi chazan da sinagoga Beth-El em Copacabana (RJ)! Seus descendentes atualmente moram no Rio de Janeiro. Toda essa breve pesquisa[3] originou-se, pois conheci, pelo Facebook, a neta de Jospeh, Cláudia Diwan, quando ela divulgou em um grupo judaico a inauguração do Projeto Ghesher, destinado aos jovens da comunidade judaica carioca, e comecei a investigar nosso parentesco.

Examinar nossas raízes nos possibilita conhecer o passado da família e nos faz refletir sobre o que realmente importa. Aprofundar-se em nossas origens nos leva ao conhecimento sobre quem somos, como viemos parar aqui e como pretendemos planejar o futuro. Fornece uma certa dose de responsabilidade.

É, por fim, um belo incentivo e uma motivação para sermos um exemplo para nossos irmãos e um orgulho para os nossos pais e avós, principalmente aqueles que carregam nosso nome.

[1] Para ler mais a respeito – https://reflexoesjudaicas.wordpress.com/2013/10/30/historia-povo-identidade-continuidade/

[2] Outros descendentes brasileiros do primeiro casamento do Rabbi Eliahou são meus amigos Patrick Chalom, Lara Hamoui, Alessandra Kaufman, e suas famílias. Eles são filhos e netos de Bahie Diwan. Seu pai, Isaac Diwan, filho do Rabbi Eliahou, foi um grande proprietário de terras da comunidade judaica de Sidon e Gerente Financeiro da Secretaria da Comunidade.

[3] A fonte utilizada foi o site www.farhi.org. Todas informações e dados foram obtidos neste endereço.

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New Jewish Day School Organization

Nessa semana foi anunciada a criação histórica de uma nova escola judaica nos EUA, sob o nome provisório de New Jewish Day School Organization – http://newjdsorg.org/

Seguindo o modelo educativo norte-americano de Jewish Day School (https://en.wikipedia.org/wiki/Jewish_day_school), a instituição foi criada a partir de 5 escolas judaicas dessa modalidade, que decidiram se unir e formar uma das maiores organizações educativas do mundo.

O tema desperta especial interesse em virtude da mistura de correntes judaicas em torno de um mesmo ideal: organizações reformistas, conservadoras e ortodoxas chegaram a um consenso (não me pergunte como) e em um acordo para oferecer um “ um campo de escolas judaicas fortes e vibrantes e que desempenham um papel central na criação de uma comunidade judaica altamente educada, rica em tradições enraizadas do Judaísmo, ativa em suas contribuições para a vida judaica, e energicamente envolvidas em as questões religiosas, acadêmicas e seculares do dia-a-dia.”

A iniciativa surpreende, pois inaugura uma nova e inédita visão onde as semelhanças e o objetivo em comum se sobressaem e se sobrepõem às diferenças religiosas e ideológicas.

O fato de conservadores e reformistas aceitarem tal acordo não impressiona. Ambos consideram o ‘pluralismo’ como uma das maiores mitzvot da Torá e constantemente defendem a legitimidade de existir diferentes linhas judaicas heterogêneas, onde cada um pode expressar seu judaísmo da forma que melhor o convém.

Chama a atenção, no entanto, a participação da Yehsiva University, representada na Diretoria do New Jewish Day Shcool por Yossi Prager, que já foi juiz do Beit Din dos Estados Unidos! Para alguém que defende a halachá e o judaísmo tradicional, não deve ser fácil aliar-se à rabinos que efetuam conversões questionáveis do ponto de vista do Shulchan Aruch, realizam casamentos mistos, violam as leis tradicionais do Shabat e Kashrut, entre outras evidentes diferenças abismais que permeiam tanto o cotidiano prático judaico quanto suas filosofias abstratas teóricas.

A decisão da Yeshiva University, portanto, é, no mínimo, polêmica e discutível e suscita diversas questões. Devemos nos unir para fortalecer nossas forças em nome de um princípio maior? Ou as diferenças entre nós incompatibiliza qualquer associação? O correto é defender a tolerância, o pluralismo, a união, ou lutar pela supremacia do judaísmo tradicional?

Aqui no Brasil, sinto que qualquer associação deste tipo está absolutamente fora de cogitação. Tenho amigos que, seguindo orientação rabínica, não entram em sinagogas de outras linhas ainda que o motivo seja para assistir uma palestra ou participar de uma cerimônia não religiosa.

O tema merece maiores reflexões judaicas e gera grandes debates. Fato é que, mesmo não sabendo de todos os detalhes a respeito da unificação, não consigo enxergar a atitude de Yossi Prager como um retrocesso ou algo maléfico para o judaísmo. Algo me diz que este é o caminho, que devemos focar no que temos em comum.

Ao longo de toda História tivemos diferentes tipos de judeus e intensos conflitos internos entre pessoas que não admitiam outras opiniões e visões, gerando discórdias e fortificando a desunião. Até quando tais entraves perdurarão? Para que?

Tive a oportunidade de interrogar o grande rabino Jonathan Sacks sobre esse assunto há dois anos. Perguntei se é correto organizar eventos em conjunto com sinagogas diferentes. Ele respondeu que ele mesmo comemora Yom Haatzmaut ao lado de uma rabina reformista e que não há qualquer problema nisso. Quando ressaltei que há muitos rabinos que desaprovam tal conduta, sua resposta foi emblemática: “nem todas as vezes a opinião dos rabinos é a vontade de Hashem”.

Não sei se é a vontade de D’us que instituições diferentes se unam para criar uma rede de 350 escolas cuja missão é proporcionar educação judaica da melhor qualidade, respeitando as diferentes linhas do judaísmo contemporâneo.

Certo é que, para a parceria funcionar e a união florescer sem atritos, muita ajuda divina será necessária.

 

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Resposta ao Manifesto “Chega de mortes – pelo fim da ocupação”

israeli flagCircula na internet um asqueroso manifesto assinado por entidades e indivíduos judeus exigindo o fim da ocupação na Palestina, em resposta à recente onda de violência em Israel. A notícia foi divulgada no site da Opera Mundi[1], curiosamente administrado por Breno Altman, um dos integrantes da chamada ‘rede global de judeus’ que assina o manifesto.  Os outros brasileiros signatários, salvo engano, são os mesmos que protestaram no Consulado de Israel no último conflito em Gaza, manifestação que coincidentemente foi divulgada pelo mesmo Opera Mundi.

O responsável por traduzir o texto para o português adotou a ridícula moda ortográfica imposta pelo movimento esquerdita/feminista, suprimindo o gênero dos substantivos.  Assim, lemos ‘Palestinxs’ ao invés de ‘Palestinos’, pois a ideia é referir-se a palestinos e palestinas. De que forma devemos pronunciar? Isso, para os militantes, não é relevante. O que importa é “acabar com a discriminação de gênero”, “extirpar o machismo da sociedade”, e impor a própria ideologia na gramática portuguesa. Estupidez à parte, o que interessa para a presente análise não são as letras e sim as palavras.

Transcrevo abaixo o manifesto na íntegra, adicionando meus comentários e respostas ao final de cada parágrafo, sempre dirigidas àqueles que o redigiram e assinaram.

CHEGA DE MORTES – PELO FIM DA OCUPAÇÃO

O título já evidencia a associação equivocada que vocês fazem entre a recente onda de violência em Israel e a denominada ocupação dos territórios palestinos, revelando desde já a ingenuidade em partir do pressuposto que o fim das mortes depende apenas do fim da ‘opressão israelense’.  Pior: vocês sequer complementam ‘fim da ocupação e fim do terrorismo’, ou ‘fim da ocupação e fim do islamismo radical’. Basta eliminar o mal principal, a suposta fonte de todas as tragédias contra o povo palestino: a ocupação israelense. Aos palestinos, por essa lógica, não deve ser imputada qualquer culpa ou responsabilidade, tendo em vista que as mortes – leia-se esfaqueamentos e atropelamentos de civis – constituem a forma legítima de lutar contra a ocupação indevida.

Prossegue o manifesto:

“Nós, membrxs de comunidades judaicas ao redor do mundo, estamos horrorizadxs pela violência que tem varrido as ruas da Palestina/Israel, custando a vida de mais de 30 pessoas, tanto palestinos como israelenses, nas últimas duas semanas. Uma menina de dois anos em Gaza foi a mais jovem das quatro crianças palestinas mortas nesse período. Um garoto israelense de treze anos está em situação crítica após levar doze facadas. Mais de mil pessoas foram feridas neste período. O medo tomou por completo as ruas de Jerusalém, centro de toda essa violência. Israelenses atirando em manifestantes palestinos em Jerusalém Oriental e seus arredores. Palestinxs esfaqueando e atirando em civis e policiais israelenses nas ruas. Forças israelenses matando palestinxs suspeitos em crimes sem julgamento prévio, mesmo quando elxs claramente não representam uma ameaça. Palestinxs jogando pedras em carros. Gangues de israelenses batendo em palestinxs, ou pedindo à polícia que atire nelxs. Palestinxs sujeitadxs a revistas humilhantes nas ruas – tudo isso tem se tornado rotineiro na cidade onde fomos educadxs a rezar pela paz, assim como em outros lugares de Israel, Gaza e Cisjordânia.
Enquanto a violência é visível nas ruas, ela também ocupa os corações e mentes de todxs. O medo está revelando o pior das pessoas, demandando mais derramamento de sangue, como se isso fosse reparar o dano feito. O medo e a retórica racista estão escalonando a situação. Mais uma vez, o governo israelense responde com o poder militar: centenas de pessoas foram detidas; o acesso palestino à Esplanada das Mesquitas, onde se encontra a Mesquita de Al-Aqsa, foi restringido; o acesso à parte do bairro muçulmano da cidade velha de Jerusalém foi proibido axs palestinxs; regras de abrir fogo foram alteradas para permitir que franco atiradorxs abram fogo contra crianças; foi estabelecida uma sentença mínima para aquelxs que atirassem pedras, afetando mais de 150 crianças que foram presas somente em Jerusalém Oriental nessas últimas semanas; e já existem propostas para impor um toque de recolher, ou mesmo o cerco à Jerusalém Oriental.

Vocês, como “membxs de comunidades judaicas ao redor do mundo” dizem sentir-se ‘horrorizados’ pela violência. Para contextualizar o leitor, realizam uma recapitulação dos fatos.

Costuma-se usar o termo ‘desproporcional’ para descrever o uso da força desse conflito. Ora, desproporcional é a parcialidade do manifesto, que se assemelha à palhaçada que temos visto nos jornais nas últimas semanas. Sublinhei as perdas israelenses e coloquei em negrito as menções ao sofrimento dos palestinos, apenas para ilustrar a maneira absurda que vocês apresentam a situação.

 Há uma clara e evidente intenção de deturpar os fatos e expor apenas os que interessam à versão de vocês, de forma tendenciosa e injusta. Vocês contam apenas um dos lados da história, o sangue que alimenta a ideologia de vocês passa a valer mais do que o sangue que a contraria.  Muitas das medidas citadas no parágrafo ocorreram justamente em razão da violência palestina, são a consequência de uma série ininterrupta de ataques e esfaqueamentos. Por que invertem os fatos?  Por que não compreendem que é legítimo um país se defender e que qualquer Estado em sã consciência jamais aceitaria um massacre de sua nação? É tão difícil deduzir que o acesso irrestrito a todos os locais viabilizaria mais ataques, por exemplo? Por que vocês, como judeus, ignoram a morte de membros do seu povo? Se não ignoram, por que a consideram secundária? Por que condenam apenas os israelenses?

Questiono à vocês o já questionava Shylok, personagem de Shakespare na obra Mercador de Veneza: Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Parece que vocês, apesar de fazerem parte do povo judeu, responderam NÃO. Não importa que a vida de seus semelhantes seja ceifada cotidianamente, não é relevante que civis inocentes sejam esfaqueados nas ruas ou atropelados por caminhões de palestinos à luz do dia, é indiferente se líderes muçulmanos educam para a paz ou pregam a destruição do nosso povo, não lhes interessa se terroristas são condenados por autoridades palestinas ou se a comunidade islâmica venera e glorifica os assassinos. O que realmente importa é condenar a legítima defesa israelense, protestar contra a reação e medidas de segurança do exército, desprezar a política israelense e ignorar a relação causa-consequência no conflito, culpando os judeus israelenses pela sua própria morte.

Vocês então concluem o argumento:

“Tudo isso constitui uma punição coletiva à população palestina de Jerusalém Oriental, mais de  300.000 habitantes. No passado, medidas como estas provaram-se ineficazes em dar fim à violência. Décadas de desapropriação, ocupação e discriminação são a principal razão da resistência palestina.”

A primeira dúvida que surge é: ao mencionar resistência palestina vocês realmente desconhecem os fatos e não sabem que muitos dos ataques à facas foram cometidos por árabes israelenses – e não árabes palestinos? Ou será que, munidos má-fé, preferem ocultar do leitor esse pequeno detalhe e classificar todo árabe como palestino?  E, mesmo se todos fossem palestinos, como alguém que conhece o mínimo de História ousa afirmar que a ocupação e discriminação são a principal razão da resistência?! Não foi a ocupação da Cisjordânia de 1967 que levou árabes de Jerusalém a assassinar civis. Entre 1948 e 1967 não tivemos paz. A Organização para Libertação da Palestina foi criada antes da Guerra dos Seis Dias! Judeus eram esfaqueados e massacrados em Hevron antes mesmo da proposta de partilha da Palestina de 1947! Em 2005, Israel retirou-se unilateralmente de Gaza, encerrando sua política de ‘desapropriação, ocupação e discriminação’. O resultado? A ‘resistência palestina’ só aumentou e o sul de Israel foi bombardeado com milhares de mísseis, provando que o objetivo verdadeiro vai ao encontro com o previsto no Estatuto do Hamas: varrer Israel do mapa e expulsar todos judeus da região. Causa espanto que vocês, como membros da comunidade judaica, sejam vítimas desta falácia e pregam esse mito como a verdade absoluta. Não, queridos judeus: não é a ocupação de seus compatriotas israelenses que causa a violência palestina. Ela é muito mais antiga e tem suas raízes em outros fatores. E mais: as mortes não têm ocorrido na Cisjordânia, vulgo território palestino, locam onde vocês poderiam taxar a ação de terroristas contra colonos de ‘compreensível’! O terror tem invadido cidades que são reconhecidas como parte de Israel pela comunidade internacional – Jerusalém Ocidental, Raanana, Beer Sheva, Tel Aviv! O que isso significa? Deixo para vocês refletirem.

Por fim, vocês adicionam um bonito e pacífico encerramento:

“Mais repressão militar israelense e a contínua ocupação e cerco nunca cessarão o desejo palestino por liberdade e tampouco tocarão as reais causas da violência. Pelo contrário, as atuais ações do governo e do exército de Israel criarão mais violência, destruição, e o entrincheiramento dessa divisão. Apenas justiça e igualdade a todxs trarão paz e tranquilidade axs habitantes da Palestina e de Israel.”

Já que as ações atuais não estancarão a violência dos terroristas, questiono: Qual é a solução para proteger civis israelenses? Como podemos interromper a rotina de esfaqueamos nas ruas? Se vocês fossem responsáveis pela segurança do Estado de Israel, como reagiriam, quais políticas adotariam? Se Israel resolvesse interromper as medidas de segurança e simplesmente falasse “promoveremos justiça e igualdade”, vocês andariam tranquilamente pelas ruas de Jerusalém? Realmente acreditam que não haveriam mais ataques? A simplista e infantil solução “promover a justiça e igualdade” ultrapassa os limites da ingenuidade tosca para adequar-se ao adjetivo de patética. A realidade não pode ser ignorada ou deturpada: judeus estão sendo atacados em seu próprio país apenas por serem judeus e, ao menos que existam efetivos mecanismos de controle, prevenção e repressão, o simples desejo de justiça e igualdade não trará nem paz nem tranquilidade.  Falar na teoria é tão fácil quanto apresentar soluções vagas e abstratas.  Israel tentou fazer a paz em diversas ocasiões. Logo após o final da Guerra dos Seis Dias, Israel ouviu os três Nãos dos palestinos: não reconhecimento de Israel, não às negociações com Israel e não à paz com Israel. Palestinos condenaram o tratado de paz entre Israel e Egito. Israel ainda tentou fazer a paz através dos Tratados de Oslo na década de 90 e depois ofereceu quase 100% do território reivindicado pelos palestinos em Camp David (2001), propondo o fim da ‘ocupação’. A resposta dos palestinos? Intifada e atentados terroristas. Novamente recusaram um Estado, assim como recusaram em 1947 e 1937 e optaram por derramamento de sangue. Uma frase bonita e louvável não impedirá que a violência e o terror continuem se espalhando. É preciso tomar providências práticas que enfrentem a situação de forma direta e garantem a segurança de todos.

Prezados,

Minha conclusão é que a identidade judaica de vocês está fundamentada em suas próprias posições políticas anti-israelenses. Ser judeu, para vocês, equivale a ser contra o sionismo e mostrar isso para o mundo. A maneira de vocês se identificarem com o povo judeu é justamente através da constante autocrítica e do status em ser reconhecido como um “judeu dissidente”.

 É claro que Israel comete erros e os palestinos sofrem. Mas, na ótica de vocês, a realidade é simples e dicotômica: Israel é o mau, Palestina é o bem. Palestinos não costumam errar, e se eventualmente erram, Israel tem culpa.  Israelenses não costumam sofrer e, se eventualmente sofrem, são responsáveis. O manifesto condena Israel e exige fim da repressão e da punição. Porém, não gasta sequer uma linha para protestar contra as autoridades palestinas, não cobra dos palestinos o fim da violência, não exige, por exemplo, que eles aceitam um Estado Judeu nem que combatam o incitamento ao terrorismo, requisitos fundamentais para construir um processo de paz.

Vocês não me representam.

Vocês não representam a esmagadora maioria do povo judeu que, apesar de nem sempre defender o governo israelense, manifestam-se a favor do Estado de Israel, se esforçam em desmentir os mitos que deformam as raízes do conflito, se orgulham de ter um país que simboliza um milagre econômico, social e religioso, se emocionam ao cantar o Haitkvá, defendem seu país em âmbito acadêmico, criticam o jornalismo brasileiro parcial e tendencioso, reconhecem a importância de Israel para a comunidade judaica global, divulgam as invenções e tecnologias que israelenses desenvolvem nos campos da saúde, educação, comunicação e tantos outros, se entristecem quando Israel é alvo de atentados terroristas, se alegram quando conseguem contribuir um pouco com o desenvolvimento do país e, principalmente, sentem vergonha alheia quando leem declarações de outros judeus enraizadas na mentira e fundamentadas na ignorância.

[1]http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/42003/rede+global+de+judeus+lanca+manifesto+contra+a+ocupacao+israelense+na+palestina.shtml

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