As lágrimas de Deus

terremoto-de-magnitude-62-atinge-centro-da-italia-e-causa-danos-e-mortosComo é de conhecimento notório, nessa semana um grave terremoto atingiu o cento da Itália, causando sofrimento e devastação. O prefeito de uma das cidades atingidas lamentou o fato noticiando que metade da cidade foi simplesmente destruída. O Papa cancelou parte de sua agenda para orar pelos feridos. Milhares de famílias perderam suas casas, centenas perderam seus entes queridos.

Sem adentrar em profundas questões geológicas, até porque eu e você não entendemos muito do assunto, podemos afirmar que o abalo sísmico foi consequência do choque entre diferentes placas tectônicas, pelo menos foi isso que aprendemos na sexta série.

Infelizmente, já estamos acostumados a ler notícias de tragédias e mortes: violência urbana, terrorismo, conflitos armado e epidemias já são parte da rotina dos jornais. Em uma primeira análise, há pouco o que fazer senão lamentar e aguardar alguns dias para que o assunto seja esquecido pela mídia. Do ponto de vista de reflexões judaicas, porém, há uma impactante diferença entre um terremoto e outras calamidades que vale a pena registrar.

Ao contrário de grande parte das tristes tragédias que corroem o mundo, o desastre natural não é, na maioria das vezes, consequência de atos humanos. Podemos culpar a Samarco pelo desastre em Mariana (MG), podemos responsabilizar o radicalismo islâmico pelos ataques covardes perpetrados na França e nos Estados Unidos, podemos até culpar as autoridades públicas pelo alastramento do vírus Zika. Indo mais além, podemos imputar ao Homem a responsabilidade pelas guerras, pelo genocídio, pela destruição, pela miséria, pela fome – isentando Deus da história. No entanto, nem mesmo um ambientalista do Green Peace ousaria afirmar que os italianos, ou a ideologia política italiana, ou a irresponsabilidade de cientistas italianos, justifica o terremoto ocorrido na Itália, ainda que houvesse poluição, desmatamento e aquecimento global.

Não há nexo causal entre a conduta humana e o desastre natural. A pergunta interessante que remanesce é – há nexo entre a conduta de Deus e o grave terremoto? Explico melhor: Será que Deus criou o mundo e deixou a engrenagem no automático para que a Natureza apenas siga leis já estabelecidas? Ou será que Ele controla e comanda todos eventos naturais? Deus quis que as placas tectônicas se chocassem a causassem centenas de mortes ou as placas tectônicas que estavam ali há milhares de anos apenas chocaram-se ao acaso, fortuitamente? Obviamente que a questão não é se Ele sabia que o abalo sísmico ocorreria e sim se Ele mesmo executou o desastre, perpetrou a destruição através das placas.

Estamos acostumados a falar ‘graças a Deus’ pelas coisas boas que acontecem. Somos ensinados que por trás do nosso esforço para o sustento sempre há a bondade divina e que não somos unicamente responsáveis pelos êxitos e sucessos pessoais, pois sem a ajuda de Deus não somos nada – o que é verdade. De outro lado, como falamos, somos ensinados que a culpa pelas tragédias mais sombrias que assolaram a humanidade é exclusivamente do Homem. Mas e quanto às catástrofes que o Homem nada tem a ver, como terremotos, furacões, tsunamis? Devemos falar graças a Deus por esses desastres? Ou Deus está por trás apenas das nossas conquistas e das coisas boas e belas da Natureza?

Baruch Spinoza, filósofo judeu holandês excomungado pelas autoridades rabínicas do século XVII, acreditava na comunhão, na confusão entre Deus e a Natureza. Para ele, Deus e Natureza são idênticos, uma mesma coisa.  Besteira? Talvez, mas Albert Einstein defendia a mesma ideia. Para o filósofo, portanto, o terremoto seria uma das expressões divinas, uma forma de exteriorizar a presença divina no mundo.

Mas vamos para fontes mais ortodoxas e confiáveis: o Talmud. As fontes judaicas tradicionais teriam algo a dizer sobre o terremoto, alguma explicação? Sim.

Em Massechet Brachot, Rav Kattina define terremoto como um “estrondo subterrâneo”. Tecnicamente está correto, apesar de talvez um pouco incompleto. Mas o que ele nos diz sobre a relação de Deus com tal estrondo? Rav Kattina responde às questões formuladas nesse texto da seguinte forma: o fenômeno natural ocorre porque Deus bate suas mãos, conforme está escrito “E também eu baterei minhas mãos, e eu vou satisfazer meu furor“. O terremoto é Deus batendo suas mãos.

Rabi Nathan discorda e diz que o barulho se dá em razão de Seu suspiro, conforme o versículo “Eu vou satisfazer o meu furor sobre eles, e eu serei aliviado“. Os outros sábios sustentam que Deus pisa no firmamento, baseando-se no passuk “Ele dá um ruído, como dos que pisam as uvas, contra todos os moradores da terra”. Rav. Aha filho de Yaacov, por fim, diz que Deus pressiona seus pés sob o Trono da Glória, conforme está escrito “Assim diz o Senhor, o céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos meus pés“.

Diferenças sutis a parte, todos parecem concordar que o terremoto da Itália tem uma intensa conexão com Deus. Ou Ele bateu suas mãos, ou suspirou, ou pisou no firmamento ou pressionou Seus pés sob o Trono da Glória, e para Rav. Kattina e Rabi Nathan a questão está intimamente vinculada à fúria de Deus.

Não cabe a mim – nem a você – tentar entender as razões pelas quais centenas de vidas foram destruídas, os motivos ocultos por trás da tragédia. Podemos somente rezar para que a situação melhore e agradecer por termos sido poupados e por ter uma vida constantemente abençoada. Mas, por outro lado, não podemos simplesmente desassociar Deus dessa história trágica. Se houve um abalo sísmico, de acordo com as fontes judaicas ora analisadas, não foi apenas em razão de uma sucessão de eventos naturais automáticos, e sim devido a uma vontade divina específica que causou o choque entre as placas tectônicas subterrâneas. Deus é autor do terremoto e a Natureza é a maneira pela qual Ele levou a cabo o desastre natural, seja por meio de suas mãos, de seu suspiro ou de seus pés.

Há ainda, uma outra opinião na Guemará, mais poética. Conta-se que Rav. Kattina passou em frente à casa de um necromante e ouviu o estrondo do terremoto. Quando questionou o necromante se ele sabia a natureza de tal barulho, escutou a seguinte resposta: “Kattina, Kattina! Por que eu não saberia? Quando o Santo, bendito seja, se lembra de Seus filhos que habitam na miséria entre as nações do mundo, Ele faz com que duas lágrimas desçam ao oceano, e o som é escutado de um canto do mundo ao outro – esse é o estrondo.”

 O que os italianos fizeram para enfurecer tanto Deus? Por que mereceram tamanho castigo e sofrimento? Se tudo é para o bem, como podemos enxergar o lado bom da tragédia? Perguntarei a Ele daqui a 95 anos. Até lá, torcemos para que as lágrimas de Deus não nos causem tantas lágrimas. E refletimos.

 

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Borboletas

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Muitas vezes ávidos e impacientes demais para apreciar o presente, almejamos ao futuro. Torcemos para que ele não demore, para que a nova fase, ou a nova etapa da vida, aproxime-se com velocidade e se apresente diante de nós de forma ágil.

Quando estamos no colégio, queremos ingressar na Universidade. Aprovados no vestibular, desejamos terminar os estudos da forma mais rápida possível. Conquistamos um emprego mas no mesmo ato da contratação já calculamos quando teremos uma promoção ou um futuro profissional e muitas vezes já cogitamos outra opção futura. Quando namoramos, já pensamos no possível futuro casamento. Enquanto desfrutamos as férias de janeiro, já pensamos no futuro descanso de julho. Planejamos, conjecturamos e tomamos muitas decisões não com base no ‘agora’, e sim fundamentados no ‘depois’.

Caminhamos no presente, com um pé no futuro. Vivenciamos o hoje com a finalidade de viver o amanhã. O efeito colateral, tão óbvio, todos conhecemos: sentimos saudades. Na faculdade sentimos saudades da escola, no trabalho sentimos falta da época da faculdade, aos 30 imagino que devemos sentir nostalgia dos 20 e, aos 50, deduzo que devemos concluir quão jovens éramos aos 30.

Tal ânsia pelo futuro muitas vezes nos leva a antecipar as fases da vida.

Toda borboleta nasce primeiramente um ovo, depois uma larva (lagarta) e somente então transforma-se em uma pupa. Apenas nesta última fase o casulo é formado e a pupa permanece isolada, repousando, talvez refletindo sobre sua existência e os desafios que estão por vir. Viver bem cada etapa é essencial para a borboleta finalmente romper o casulo, atingir a fase adulta e se transformar no esbelto inseto que conhecemos.

No entanto, nós, humanos, seres muito mais complexos que insetos, muitas vezes não valorizamos o processo: somos atraídos pelo futuro e buscamos simplificar a antecipar nossas etapas.

Esse desejo inconsciente é o que motiva crianças de nove anos a desprezarem brinquedos fabricados para idade delas por considerarem ‘babacas e infantis’, é o que incentiva jovens de 15 anos a se alcoolizar com vodca e cerveja, é o que pressiona jovens de 22 anos a não cogitar trocar a faculdade, sair do país, mudar de carreira, flexibilizar o rumo da vida, etc (esse ‘etc’ é fruto de uma pequena autocensura que fiz nessa parte do texto). Em uma era de fastfood, fastshop, fastpass, a fastlife parece ganhar força.

O tempo se esfarela diante de nós e a vida, que já é indubitavelmente curta, passa a ser encurtada.

Contrastando esse ímpeto de viver precocemente, Shlomo Hamelech preceitua:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. 
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;  Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

Eis as palavras do personagem considerado pelo judaísmo como um dos mais sábios da história da humanidade. Mas quem estuda Kohelet hoje em dia, não é mesmo? Quem tenta aprender lições de Eclesiastes? Tema para outro texto. Não desviemos; voltemos.

Se de um lado tentamos antecipar as fases, de outro deixamos de fazer coisas em nome de um amanhã.

O amanhã vira desculpa para não arriscar, o futuro nos prende na zona do conforto. É claro que é importante ter um projeto de vida e que devemos criar expectativas, ou, pelo menos, enxergar perspectivas durante a jornada, vislumbrar um objetivo maior que nos guie, um rumo que nos oriente. É claro também que o futuro não deve ser encarado com indiferença e que devemos saber que colheremos amanhã tão somente o que plantamos hoje. Mas há uma diferença entre planejamento e aprisionamento…

A vida, quando reduzida a uma sequência de atos pré-determinados, perde a espontaneidade e se transforma em um caminho estreito e certo, que evita curvas, subidas íngremes, descidas arriscadas e caminha em direção a um destino já estabelecido. É uma viagem que seguirá a rota que já conhecemos de antemão. Não usamos o Waze, somos avessos aos riscos inerentes a um trajeto diferente, sentimos mais segurança em trilhar o caminho que a multidão trilha, ainda que a outra rota alternativa possa nos levar em menos tempo ao mesmo destino final.

O futuro, nesse sentido, amedronta nosso presente e o medo nos freia. Defendemos que “se no futuro eu preciso ser/fazer/ter X, hoje não posso ser/fazer/ter Y”. Optamos por seguir o maligno conselho do filosofo contemporâneo Zeca Pagodinho no sentido de simplesmente “deixar a vida me levar, vida leva eu”. Esquecemos que, como disse Clarice Lispector, “o futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.”

Ao invés de se prender a um futuro supostamente previsível e inevitável em detrimento do presente, talvez precisamos nos afastar para ampliar nosso campo de visão e ter certeza do que queremos. Qualquer um que tentar aproximar um livro a um centímetro de seus olhos verá que não consegue enxergar, precisa afastá-lo para ler. A certeza que queria trabalhar com Direito se consolidou não quando entrei na Faculdade de Direito, não quando estagiei em um escritório de advocacia e sim somente após trabalhar um ano com importação no departamento comercial e financeiro. Se essa lógica se aplica a vida profissional, por que não aos outros campos? Nesse sentido, somos diferentes das borboletas: podemos nos afastar, refletir e exercer o poder de escolha de acordo com nossa consciência e valores.

A antecipação das fases da vida, a pressa e o conformismo a um futuro certo nos impedem de dar tempo ao tempo. Mas nem mesmo fotos do Facebook podem ser apreciadas instantaneamente – quando clicamos demora alguns momentos até tornarem-se 100 % nítidas. Isso porque o tempo, além de curar todos os males, esclarece, ilumina, desembaça. É ele, afinal, o grande responsável por criar asas coloridas naquelas que um dia já foram um simples ovo.

 

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SEFARIA e ELI TALKS

            Ainda que esteja na moda criticar o uso excessivo dos computadores e das redes sociais, não há como negar que a internet serve hoje como uma excelente ferramenta de estudo, análises e pesquisas, consagrando-se como uma fonte inesgotável de informação e conhecimento. É claro que existem muitas besteiras, materializadas através de textos pouco confiáveis escritas por autores com segundas intenções. Mas, em geral, pode-se afirmar que a internet possibilitou um amplo e inédito acesso à informações sobre todos os campos.

            Se o assunto não está no Google, é porque não existe.

          Imagine então um Google judaico, onde absolutamente toda sabedoria, todo conteúdo e todo conhecimento judaico produzido estaria reunido, organizado, pronto para ser pesquisado, examinado, saboreado. Imagine que o recipiente desse montante enciclopédico de informação pudesse resumir-se em uma vasta biblioteca judaica virtual que reunisse todos os livros já editados, comentários já escritos, estudos já realizados. Vou além. Imagine que tudo isso estivesse disponível em um idioma universal – o inglês, no caso – e que obras de centenas de anos atrás estivessem traduzidas na internet, prontas para serem apreciadas por qualquer um que entende o básico da língua inglesa.

            Pois é. Alguém imaginou e está fazendo.

      Basta acessar o site http://www.sefaria.org/ e ver com os próprios olhos. No computador o site funciona na íntegra, no celular dá para ter apenas uma noção da qualidade do trabalho) Não é preciso ser religioso para se impressionar com a Sefaria. O site tem uma interface excelente e apresenta todo Tanach, Talmud, Tossefta, Mishná, Halachá, Kaballah, Liturgia (rezas), Filosofia, Chassidut, Mussar, etc! A quantidade  imensurável de informação faz qualquer um se sentir ignorante diante da grandeza e vastidão do judaísmo.

           Um dos objetivos do projeto é ser referência na educação judaica, auxiliar professores na transmissão de conteúdo e preparação de aulas aos alunos. Por essa razão, é possível criar e publicar arquivos e pastas, elaborar um programa de estudo e contribuir com o futuro judaico digital.

            Mas não é só.sefaria-project

            O site também traz centenas de comentários de grandes rabinos sobre cada trecho e conexões com outras partes da Torá (“sources”). Por exemplo, somente na Perashá dessa semana (Emor), há nada menos do que 857 sources, de autores como Rashi, Rambam, Sforno, Ramban, OrHaChaim, Ibn Ezra, Chafets Haim. A grande maioria está traduzida para o inglês, mas o trabalho continua e é possível colaborar.

        O site vai além. É possível também ‘filtrar’ essas 857 sources. Por exemplo, posso escolher só ver sources ligados à Halachá (lei judaica) que se fundamentam em algum versículo da Perashá ou acessar apenas comentários filosóficos judaicos. Enfim, os recursos são muitos e as possibilidades são incontáveis.

            Cito mais um: é possível explorar conexões entre Talmud e Tanach. Isto é, o site possui uma teia imensa de vínculos entre a Torá Escrita e a Torá Oral. Só acessando diretamente pelo computador para entender a genialidade da coisa: http://www.sefaria.org/explore

            Por fim, a expressão “Google judaico” não foi sem motivos: há um campo ‘search’ em que posso pesquisar qualquer termo emhebraico ou inglês. Por exemplo, a palavra ‘love’ encontrou 1393 resultados (262 resultados do Tanach, 39 do Talmud, 214 em obras filosóficas, 29 em Mishná, 47 em Mussar, etc).

            Mas se você não gosta de ler e, por alguma razão mais profunda, que eu desconheço, não se interessou pelo Sefaria, não se preocupe. O brilhantismo da mente humana criou outra ferramenta judaica virtual ambiciosa e inovadora: ELI TALKS.

            Se a Sefaria é o Google judaico, o ELI TALKS é a versão judaica do famoso TED TALKS. TED TALKS é uma série de conferências destinadas a disseminação de diversas ideias que, segundo a organização, merece ser divulgadas. As palestras possuem curto tempo de duração (18 minutos no máximo) e a metodologia espalhou-se por todos continentes.

        ELI TALKS desempenha exatamente a mesma função, mas de maneira judaica. Diversos líderes, especialistas, rabinos, profissionais de todas as áreas produzem vídeos curtos sobre identidade, continuidade judaica, educação, liderança, vida judaica, Israel, filantropia, religião. O site oferece uma quantidade imensurável de reflexões judaicas na forma de vídeos curtos. Acessando http://elitalks.org/ e assistindo aos vídeos das palestras é possível conhecer diversos dilemas atuais, especialmente da comunidade judaica norte-americana, além de conhecer novas visões modernas sobre temas antigos.

           Eli Talks Logo-200x216

          No meu último post,criticado por alguns, afirmei expressamente que “a lei judaica não precisa de reforma. Mas criatividade na forma pela qual a cumprimos e a inovação ao vivenciar o judaísmo são ingredientes bem-vindos. Mais do que isso, talvez sejam indispensáveis.” É exatamente esse papel que novas ferramentas como essas estão desempenhando. O papel de pensar fora da caixa, inovar sem reformar, tornar mais acessível, elaborar soluções originais, desenhar estratégias a longo prazo.

       São ideias excelentes que estão sendo executadas por pessoas que jamais esqueceram seu passado sem nunca terem ficado presas a ele, que vivem intensamente o presente e que planejam, com ambição, dedicação e energia, o futuro do nosso legado.

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Pessach Kasher Ve SAMEACH

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Encerram-se, enfim, as 48 horas de Yom Tov de Pessach, dias sagrados da festividade. Assim como na maioria das festas judaicas, não podemos praticar as 39 ações vedadas no Shabat[1]. Destaca-se, entre elas, a proibição de acender fogo, que se estende ao conceito de energia elétrica para proibir qualquer contato com aparelhos eletrônicos. Na teoria tudo é muito bonito. Nesses dias, nos desconectamos do cotidiano para cumprir com o mandamento divino de descansar, não executamos qualquer atividade criativa, nos reunimos com nossos familiares, celebramos as históricas festas judaicas, vamos à sinagoga, rezamos e nos aproximamos de Deus.

Na prática, porém, por mais paradoxal que possa ser, o descanso cansa bastante.

A sequência comer-rezar-dormir amolece nossos corpos e instiga a fadiga. A preguiça gera mais preguiça e em pouco tempo nos tornamos cansados do ócio, nos sentimos pesados, um pouco sonolentos, talvez um pouco cansados da rotina espiritual. Ternos, gravatas e longos vestidos contradizem o sol escaldante e os 30ºC lá fora apenas intensificam a sensação de fraqueza, calor, inchaço, cansaço.

Nesse ano, o 1º dia de Pessach coincidiu com Shabat. Há anos, porém, que Pessach tem início na quarta-feira e logo quando termina é seguido do Shabat, onde temos mais rezas, mais comidas, mais ternos.

Esses dias, para aqueles que respeitam as leis mas ainda são incapazes de apreciá-las como se deve, são acompanhados por certo tédio, o que era para ser belo e revigorante torna-se um pequeno fardo, ou, como dizem muitos, um ‘rolê’[2].

Nosso grande desafio é saber transformar o Yom Tov e as festas judaicas em geral em algo verdadeiramente significativo, agradável, esperado e encantador. É aprender a vivenciar as experiências do calendário judaico de maneira intensa e leve ao mesmo tempo, de forma que obedeça a lei judaica, mas também seja algo que nós aproveitamos e saboreamos internamente. Pessach é a festa da Liberdade. Quantos de nós realmente nos sentimos livres? Sukot é a festa da alegria. Quantos de nós realmente nos sentimos alegres?

Um dos intuitos da Hagadá é transmitir a história do êxodo às crianças. Será que realmente cumprimos com esse mandamento ou apenas lemos a narrativa em um hebraico complexo enquanto os menores contemplam passivamente, ora agitados, ora com sono, o transcorrer da longa cerimônia? Talvez faria mais sentido assistir ao divertido musical O Príncipe do Egito, da DreamWorks Animations, com pipoca Kasher le Pessach e refrigerante Xereta à vontade?

O objetivo do costume de reclinar-se 45º à esquerda é para nos fazer sentir como reis. Será que realmente personificamos um monarca ou na realidade achamos a posição desconfortável e, dependendo da cadeira, uma injustiça com nossas costelas? Talvez faria mais sentido utilizar puffs, fons e almofadas?

A lei judaica não precisa de reforma. Mas criatividade na forma pela qual a cumprimos e a inovação ao vivenciar o judaísmo são ingredientes bem-vindos. Mais do que isso, talvez sejam indispensáveis. Tais como as tradições judaicas, o ânimo e o entusiasmo pelo judaísmo também são transmitidos de geração em geração. Até quando nossos descendentes estarão dispostos a sacrificar sua rotina em homenagem a um “conjunto de obrigações e afazeres” carentes de sentido e significado, que pouco agregam em suas vidas? Somente se cumprirmos os mandamentos com vontade, alegria, bom humor poderemos garantir sua continuidade, através do exemplo pessoal. De nada adianta cumprir com a festa judaica e com a tradição de forma mecânica, automática e robótica, sem demonstrar envolvimento sentimental, empatia e sensibilidade.

Nos dias de hoje, em que é tão fácil praticar ou deixar de praticar o judaísmo, em que a identidade já não é algo inato, sólido e eterno, em que há vasto acesso à informação, e em que as mudanças atingem recordes de velocidade; nos dias de hoje, em que a sociedade maior é aberta e as minorias são bem absolutamente livres para assimilar-se, em que a homogeneização cultural predomina, em que nenhum valor ou princípio é inquestionável e em que nenhum dogma é irrefutável, urge-se, pela primeira vez, a questão de porquê ser judeu, e não apenas como ser judeu.

Somente respondendo a essa pergunta – e revendo a maneira pela qual vivenciamos o judaísmo – teremos certeza que em 2016 ainda haverá um Seder de Pessach vibrante e significativo.


[1] Com exceção de algumas proibições, como carregar ou cozinhar.
[2] É claro que há aqueles abençoados com uma percepção mais elevada e consegue captar e interiorizar o descanso do Yom Tov. De outro lado, há aqueles completamente desconectados das tradições judaicas, que pouco se importam com as festividades. Portanto, é importante concluir desde já que esta análise não se aplica a muitos setores da comunidade judaica, a fim de evitar, nos comentários, uma acusação de “generalização” ou a publicação de que “este texto não me representa”.
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Mais que 1.000 palavras

– Para de brigar, isso é coisa de judeu. Não pega esse produto do mercado sem pagar, isso é coisa de judeu.

– Como um judeu falou com você!? Judeu não gosta de negros!

Essas foram algumas das revelações que escutei hoje dos moradores da periferia de São Paulo. Infelizmente, parte dos habitantes da região é imbuída de preconceitos e estereótipos sobre o povo judeu ainda durante a infância, através das frases e comentários supratranscritos. A ausência de conhecimento e o distante contato direto com o judaísmo são fatores que agravam tais imagens negativas. O contrário certamente também se aplica. Quantos de nós resguardam preconceitos – ainda que implícitos e submersos – contra outras minorias?

Participei hoje de um evento beneficente coordenado pelo Moré Ventura, rabino e ativista social. Fomos até o Jardim Ângela e lá doamos aos moradores o que foi coletado na campanha de doação do Chametz. Além de mim, outros jovens e principalmente crianças da comunidade judaica participaram da ação. Primeiramente, conhecemos a instituição Talento Jovem, que oferece assistência a comunidade local. Lá conversamos com os voluntários, numa dinâmica em grupo e individual. Posteriormente, fomos conhecer a creche municipal, que cuida de centenas de crianças, e passeamos pelas ruazinhas e casas que perfazem um cenário absolutamente destoante da nossa realidade. Tive a oportunidade de conversar pessoalmente e por um bom tempo com uma professora de escola pública, com a coordenadora da creche e com um dos diretores da Talento Jovem. Por fim, separamos os alimentos e distribuímos à aproximadamente 30 famílias da região.

O dia foi recheado de aprendizagens. A primeira delas, conhecer in loco os problemas enfrentados por grande parte da população brasileira, conversar pessoalmente com lideranças da região, ouvir, debater, ver com os próprios olhos o drama da questão social e a profundidade das privações materiais.

Jardim Ângela, one of the most violent suburbs of São Paulo.

Jardim Ângela.

A segunda grande lição foi justamente aprender, através do diálogo, a quebrar os falsos muros ideológicos que dividem a sociedade entre “nós” e “eles”, conflito artificial que muito se agravou nos últimos tempos em razão do caos político que assola o país, principalmente através do discurso político.

 A terceira – talvez a mais marcante – foi constatar a existência de pessoas que vivem lá em condições socioeconômicas limitadas e que mesmo assim não abrem mão de investir seu esforço, energia, dedicação e muitas vezes o próprio orçamento financeiro para fazer o bem e ajudar o próximo. Pessoas que poderiam muito bem alegar que não possuem condições para prestar qualquer serviço voluntário, que poderiam argumentar que precisam primeiramente cuidar de si mesmas e pensar em suas famílias, que poderiam apenas abdicar-se de se envolver dizendo somente “é triste mesmo, mas nada posso fazer para consertar, estou quase na mesma”; enfim, pessoas que vivem na região e cuja sorte não lhes sorriu na mesma proporção que sorriu para mim e para você, pessoas assim dedicando-se plenamente ao outro, esforçando-se para prestar todo tipo de auxílio possível, fazendo sua parte, praticando de forma voluntária o ativismo e a beneficência, através da assistência social, da compaixão, do carinho, da pura vontade de fazer o bem e ser protagonista da mudança. Verdadeiros heróis.

A quarta lição – a que faz jus ao nome deste blog – foi conscientizar-se do caráter judaico da ação promovida. Foi ir lá com um rabino e com membros do movimento Bnei Akiva, mostrar o lado social do judaísmo e sua interação com a sociedade maior. Na obra “Para curar um mundo fraturado”, Rav Jonathan Sacks opina que “estamos aqui para fazer a diferença, um dia de cada vez, um ato de cada vez, durante o tempo que for preciso para tornar o mundo um lugar de justiça e compaixão” e também que “ é por nossos atos que conseguimos expressar nossa fé e torná-la real na vida dos outros e do mundo”. Da mesma forma, o próprio título de seu mais novo livro já resume bem a ideia por trás da ação de hoje no Jardim Ângela – “A Judaism Engaged With The World”.  O ex-Rabino Chefe da Commonwealth defende a ideia, para mim irrefutável, que um judaísmo divorciado da sociedade maior será um judaísmo incapaz de influenciar a sociedade ou inspirar jovens judeus. É claro que doar alimentos para 30 famílias é uma ação mínima como uma agulha em um palheiro, mas suas consequências podem ser exponenciais e multiplicadoras.a-judaism-engaged-with-the-world-cover

Mais do que isso, ações como essa possuem, no mínimo, um efeito tridimensional: cumprem na prática os mandamentos de tsedaká, chessed, rachamim, tikun olam e tantos outros que fundamentam a prática do bem, aprimoram a imagem dos judeus e do judaísmo perante a sociedade maior contradizendo ideias preconceituosas e o antissemitismo, e por fim, servem como combustível para motivar a aproximação de judeus desfilados de seu povo que passam e identificar-se com o judaísmo e as práticas da comunidade judaica. Enfim, passam a sentir-se orgulhosos de serem judeus.

Um pequeno gesto tem o potencial de produzir grande impacto. Não é à toa que uma ação vale mais que 1.000 palavras!

 

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8 motivos para apoiar o processo contra a EL-AL

Renee Rabinowitz ocupou manchetes de jornais como The New York Times  e The Guardian nas últimas semanas ao decidir processar a companhia área EL Al por sexismo.

A narrativa é simples: Renee estava confortavelmente acomodada em seu assento na classe executiva em um voo entre Israel e EUA quando foi abordada por uma aeromoça que pediu que trocasse de lugar. Renne foi conduzida a outro assento próximo a duas pessoas que estavam conversando em voz alta. Não gostou da nova localização e questionou a comissária de bordo por quê deveria mudar de lugar. A aeromoça afirmou que solicitação havia sido formulada pelo passageiro que sentava a seu lado, um haredi de aproximadamente 50 anos, que alegou não ser permitido sentar-se ao lado de mulheres.

Tais fatos motivaram o processo em face da companhia aérea: Renne alega que foi vítima de discriminação em razão do gênero e sentiu-se diminuída e desprezada.

Abra-se um parêntese para registrar alguns pontos peculiares da biografia da sra. Rabinowitz que merecem ser destacados:

 – Idade: 81 anos.

– Vida matrimonial: casou duas vezes e atualmente é viúva. Ambos os maridos eram rabinos.

– Vida acadêmica: estudou em uma escola judaica ortodoxa em Nova York. Posteriormente, obteve o título de PhD em Psicologia Educativa.

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Renee Rabinowitz, passageira que foi obrigada a trocar de lugar no avião da EL AL por ser mulher.

Voltemos. Após ser comunicada pela aeromoça que deveria trocar de lugar, Renne ainda tentou argumentar com o passageiro ultra-ortodoxo. “Por que você se importa? Tenho 81 anos”, ao passo que escutou a resposta “está na Torá”.

Está mesmo?

Tenho certeza que há pessoas que dirão que Renne Rabinowitz deveria respeitar a opinião do passageiro sem causar grandes transtornos, considerando que teve uma forte educação judaica e uma ampla vida religiosa e, portanto, conhece essa realidade. Ao processar a El-Al, dirão alguns, Renne tenta chamar atenção e presta um desfavor ao judaísmo, posto que divulgará os religiosos, e por consequência, a religião, como sendo machista, sexista, discriminatória, etc. Argumentarão que “roupa suja se lava em casa” e que tais notícias apenas “fomentam o antissemitismo e a imagem negativa dos judeus”. Dirão, ainda, que Renee interpretou os fatos de maneira errada, que o passageiro apenas quer o respeito à sua liberdade de religião e é obrigação da El-Al, companhia aérea de Israel, o Estado Judeu, assegurar a todos os passageiros a possibilidade de viajar de acordo com a estrita lei judaica.

Com todo respeito, não podemos concordar com esta visão.

Primeiro, não há lei alguma que proíba sentar-se ao lado de uma mulher em trens, ônibus, ou aviões, mormente quando a passageira é uma senhora de 81 anos. Renne inclusive citou decisões do eminente Rav Moshe Feinstein nesse sentido. Devemos, portanto, separar o que é o cumprimento estrito da lei do que é exagero e puro radicalismo.

Segundo, tais condutas devem ser divulgadas e a mulher não deve abaixar a cabeça, sob pena de concordância tácita (“quem cala consente”). Se o silêncio prosperar a situação poderá se agravar de maneira perigosa, a um ponto que sequer imaginamos.

Terceiro, processos judicias como este devem ser conhecidos para incentivar a voz de judeus religiosos, em nome da honra da Halachá. Judeus ortodoxos devem manifestar-se, dizer “not in my name” e deixar claro que atitudes como essa nos os representam e, principalmente, não representam o judaísmo, como de fato tem ocorrido nestes casos. Seria mais fácil – mas menos digno – agir por debaixo dos panos.

Quarto, o fato de Renne não ser adepta do reformismo ou laicismo apenas reforça a credibilidade e legitimidade da indignação. Isso não está sendo feito, como poderia se argumentar com referência ao movimento feminista do Kotel, apenas por provocação, para chamar a atenção e para desafiar a autoridade religiosa como um todo.

Quinto, qual outra companhia aérea aceitaria ser escrava de um determinado grupo de passageiros e obedecê-los cegamente? Por que alguns teriam o privilégio de escolher ao lado de quem se sentarão?  Imaginem a situação em qualquer outro cenário e verão qual absurda é a submissão da aeromoça e a discriminação autorizada.

Sexto, se o rabino realmente deseja se cuidar e suspeita que pode atrair-se sexualmente pela senhora de 81 anos e que seria melhor não arriscar um contato próximo, que ele procure um outro lugar, que ele busque uma outra opção sem incomodar a passageira ao seu lado.

Sétimo, se ele acha que é dever da mulher – e não dele – levantar-se e sair do lugar, que peça diretamente a ela gentilmente, que explique educadamente a situação, com decência e cortesia, e que não simplesmente ordene a comissária da EL AL que remova de seu lado a passageira.

Oitavo, será que incomodar uma senhora sobrevivente do holocausto e humilhá-la representa a vontade divina? Será que D’us não preferiria que alguém dedicado às mitzvot e à Torá fizesse kidush hashem e agisse com respeito, bom-senso e compreensão?

              Amanhã terá início a festa de Pessach. Que o processo contra a EL AL seja uma fonte de inspiração para refletir sobre todas dimensões da Liberdade. Chag sameach!

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Um breve ensaio sobre a verdadeira Liberdade

Pessach, a Festa da Liberdade, aproxima-se mais uma vez de nosso calendário.

Não são poucos os que menosprezam a importância fundamental da Liberdade ou carecem de uma visão ampla e profunda acerca de suas dimensões. Entendida muitas vezes como a simples ausência de coerção no direito de ir e vir, ou seja, a ausência de prisão carcerária ou escravidão, a Liberdade muitas vezes é reduzida apenas ao seu espectro físico. Nesse ponto, registre-se que, conforme Gandhi, “a prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.”.

Contudo, diante desse conceito limitado que vigora na maioria de nós e, considerando que vivemos em regimes democráticos que respeitam os direitos e garantias individuais básicos, esquecemos noções mais profundas acerca desse princípio basilar da condição humana.

Muitos filósofos, pensadores e estadistas contribuíram durante séculos com sua concepção de liberdade. Nasceram dessas ideias a corrente política liberal que engloba liberalismo econômico, o neoliberalismo, o libertarianismo, entre outras ramificações do princípio da Liberdade.

Não são essas modalidades de Liberdade que pretendo expor e analisar aqui.

A Liberdade da qual me refiro atina não com uma corrente filosófica, política, social ou econômica (apesar de ser fã de todas essas) e sim com o trecho de um famoso poema de William E. Henley cujo último verso preconiza: I am the master of my fate,I am the captain of my soul.

Quantos de nós somos donos do nosso próprio destino? Quantos de nós somos o capitão da nossa alma? Quantos exercemos de fato o direito à Liberdade?

Bronnie Ware, uma enfermeira australiana que auxiliava pacientes terminais, escreveu um livro narrando os cinco arrependimentos mais comuns antes das pessoas morrerem (The Top Five Regrets of the Dying).

No livro, a enfermeira conta que os pacientes foram abençoados com uma incrível clareza de pensamento no fim de suas vidas e que podemos aprender muito com esta sabedoria.

Qual é o arrependimento mais comum, o que liderou a lista? “Gostaria de ter tido a coragem de viver uma vida fiel a mim mesmo, e não a vida que os outros esperavam de mim”

É arrepiante constatar que tantas pessoas queixam-se ao final da vida de não terem sido plenamente livres. A infidelidade a si mesmo nada mais é do que a abstenção de exercer o direito à Liberdade! A Liberdade aqui escancarada é exatamente àquela que se referiu William E. Henley, no sentido de ser dono do destino e capitão da alma.

Nesse diapasão, poderemos começar a compreender a importância de ser livre e de viver nossas vidas com base no supremo princípio da Liberdade. Se nos mantivermos inertes e ignorarmos, em nossa tomada de decisões, a possível perda de Liberdade, estaremos condenados a viver uma vida com base apenas no que outros esperam de nós. Para gozarmos de uma existência digna e condizente com nosso caráter e personalidade únicos, precisaremos exercer a Liberdade em nosso cotidiano. O que nos diferencia dos animais é o fato de sermos seres pensantes e livres, seres que podem direcionar seus rumos, que podem escolher e decidir com base na razão ou na emoção, podem escolher o certo ou o errado, o fácil ou o difícil, com base em nosso próprio juízo de valor.

Se não tivermos coragem suficiente, se vivermos uma vida baseada em opiniões alheias que contrariam nosso desejo íntimo, se a supremacia da nossa individualidade não prosperar e se, por fim, nossas ações contradizerem nossa personalidade, então nosso destino estará fadado tanto à frustação convertida em arrependimento, quanto à tristeza convertida em angústia. Frustação convertida em arrependimento ao perceber o vazio da nossa existência, tristeza convertida em angústia por não ter forma de voltar atrás e por constatar que desperdiçamos a chance única de escrever nossa própria história no livro do mundo.

Rav Kook sintetiza de forma brilhante esta grande ideia:

“Quem é fiel a si mesmo – é um homem livre; e quem preenche sua vida apenas com o que é bom e belo aos olhos dos outros – é um escravo.”

Rav Adin Steinsaltz está em consonância com esta visão e a explica com mais detalhes:

“A liberdade é percebida com mais frequência como a ausência de escravidão – assim como a escravidão pode ser definida como a ausência de liberdade. Mas na realidade, a ausência de escravidão em si não cria uma condição de liberdade. A escravidão é uma condição na qual a pessoa é para sempre forçada a agir de acordo com a vontade de outro. Liberdade é a capacidade do ser humano de agir e expressar-se. Aquele que não possui o desejo da auto-expressão e realização independente – seja porque seu espírito foi alquebrado ou jamais se desenvolveu – não pode ser considerado um homem livre. Ele não é livre, apesar de não estar mais sendo fisicamente escravizado; é meramente um escravo abandonado – um escravo sem amo.”

Viktor Frankl, neurologista austríaco sobrevivente do Holocausto ensina que “pode-se tirar tudo de um homem exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.” Apesar de, pelo contexto fático que viveu, o autor referir-se a situações extremas de vida ou morte, a ideia pode ser traduzida também em decisões básicas do dia a dia, além de decisões mais relevantes que direcionam os caminhos que queremos trilhar.

A indecisão ou insegurança são, muitas vezes, sintomas de perda de liberdade. Sabemos o que realmente queremos, por qual caminho queremos seguir, qual rumo queremos traçar, mas ficamos indecisos e inseguros ao constatar que esse não seria o desejo que esperam de nós. Em outras palavras, a disputa não ocorre entre duas formas de pensar no âmago da nossa consciência e sim no conflito entre a nossa própria consciência e a dos outros. Teríamos muito mais confiança em nós mesmos se lembrássemos de que sem Liberdade genuína não há auto-realização e, portanto, não há como atingir a felicidade em sua plenitude.

Talvez é isso que Immanuel Kant quer dizer quando apresenta a ideia de que somos livres apenas quando agimos de acordo com nossa verdadeira natureza, e não sob domínio das paixões alheias. De forma semelhante, Martin Heidegger defende seu conceito de autenticidade (Eigentlichkeit) e que devemos viver por nós mesmos.

Passa despercebido de nós que o ponto em comum da biografia de líderes, pessoas bem-sucedidas, grandes referenciais e exemplos pessoais nos mais diversos campos e nas mais variadas áreas é justamente ter levado uma vida com base em decisões livres e autônomas, dando menos importância ao julgamento alheio e mais relevância às convicções pessoais, edificadas por um conjunto de valores e princípios que norteiam seus rumos de maneira independente em âmbito acadêmico, profissional, pessoal, político.

Desde o início da Idade Média, poucos momentos foram marcados por uma liberdade tão extravagante e ampla no campo coletivo e no espectro individual. Concomitantemente, nossas decisões são cada vez menos livres e autônomas, dependentes de “sábios conselhos” fornecidos por pessoas que na hora de opinar sobre a vida alheia aparentam ser pós-graduados em diversas áreas do conhecimento, mas que no momento de tomar as rédeas de seu próprio destino são fracas e confusas. Inteligentes são aqueles que, em momentos de aperto, induzem seu amigo a concluir e deduzir qual seria sua própria vontade pessoal, ao invés de impor um juízo prematuro, parcial e subjetivo. Uma autoridade – religiosa ou política – pode nos ajudar a enxergar uma situação sob outra ótica ou descobrir outro lado que não havíamos pensado. Mas jamais nos conduzir como rebanho, jamais aproveitar nosso fraco e sensível autoestima para nos dizer o que devemos ou não fazer, o que é o certo ou o que é o errado, como devemos agir, como devemos reagir.

Lembro que, há muitos anos, quando parei de usar eletricidade no shabat, minha avó me advertiu: “Se você não acende a luz no sábado porque você pensou com autonomia e concluiu que deve respeitar essa lei, e que isso é o correto e quer isso para você – ótimo. Se você só parou de ligar a luz apenas porque um rabino mandou e não pensou – eu não concordo com você.”

Ter humildade de escutar a opinião alheia e a levar em consideração é uma virtude. Mas submeter seu poder de escolha a alguém e parar de pensar por contra própria é uma fraqueza. Não sou eu o autor essa lógica. Todo este conceito de sucumbir nossa liberdade às opiniões ou pressões externas está enraizado na corrente filosófica existencialista de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvior, mais especificamente no conceito denominado mauvaise foi.

Se pararmos para pensar, todas conflitos, discussões e intrigas são originados no desrespeito à liberdade. Se todos compreendessem que nascemos com um direito inviolável de ser livres para pensar o que quisermos, defender o código moral que acreditamos, exercer a religião que desejarmos, sem coerção física ou emocional, nossos relacionamentos seriam mais harmônicos e a paz seria duradoura.

 Finalizo com um trecho da obra “Sobre a Liberdade”, escrita por John Stuart Mill em 1859:

“A proteção contra a tirania do magistrado não é suficiente, há necessidade de proteção também contra a tirania das opiniões, contra a tendência da sociedade em impor suas próprias ideias e práticas como regras de conduta para aqueles que discordam delas”.

 E sua conclusão:

“Há um limite para a interferência legítima da opinião coletiva na independência individual, e descobrir esse limite e protegê-lo contra o seu cerceamento é tão indispensável para a boa condução dos negócios humanos quanto a proteção contra o despotismo político.”

Uma perspectiva sobre a Liberdade bem diferente da comumente divulgada em Pessach…

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