Judiarias

Judiaria é o nome dado a um bairro composto por ruas estreitas e edificações antigas onde judeus viveram séculos atrás. Espalhadas por cidades da Espanha e Portugal, são parte do conjunto de atrações turísticas históricas, um museu a céu aberto. Na Espanha, pode-se visitar o que sobrou de três das centenas de sinagogas vitais para a prosperidade de diversas comunidades judaicas. As sinagogas que sobraram serviram posteriormente como igrejas católicas.

O estranho é que nenhum folheto, explicação, ou monumento faz menção à expulsão dos judeus em 1492 ou à crueldade que sucedeu tal evento. Não há qualquer indicação de que houve um decreto que baniu o judaísmo do país, de maneira que aos olhos de um leigo, parece que um dia a sinagoga espontaneamente deixou de ser utilizada e os bondosos católicos, no intuito de conservar a propriedade, resolveram – por que não? – transformá-lo em um local de culto cristão. Que ato nobre!

Aliás, o enfoque dado é justamente o oposto. Apresenta-se Toledo e Córdoba como palcos do florescimento das três culturas – judaísmo, islamismo, catolicismo – e de uma pacifica e harmônica coexistência entre ambos. Veja o que o site Toledo-Turismo diz em relação ao tema: “A lo largo de toda su extensa historia, Toledo ha sido conocida siempre por ser la Ciudad de la Tolerancia o la Ciudad de las Tres Culturas, con la convivencia de judíos, musulmanes y cristianos.”

Que tipo de tolerância? Certamente não a do ano de 1391, qual judeus toledanos foram massacrados, esquartejados, e dezenas de sinagogas e escolas foram destruídas. Convivência? As matanças foram tantas que há registros de mudanças de cor da água do Rio Tajo, onde os cadáveres ensanguentados de judeus foram simplesmente despejados! Cidade de três culturas? Sim, após uma esmagar a outra e usurpar seus locais de oração. Sim, após uma cultura exigir que outra seja extinta.

Tais aniquilações, é importante recordar, foram levadas à cabo antes mesmo do fortalecimento da Inquisição, um século antes da expulsão formal.

Os sites e os informativos relatam que houve uma expressiva e vibrante comunidade judaica no país, mas se calam quanto aos motivos pelo quais tal comunidade foi extirpada. No Museu Sefaradi, descreve-se como judeus viviam durante o regime romano, visigodo, muçulmano e católico, como se o reinado cristão fosse apenas e tão somente mais uma cultura dominante e majoritária, como se não fosse responsável por terríveis e imprescritíveis crimes contra o judaísmo e contra a humanidade como um todo, como se fosse o tempo – e não uma política autoritária e uma sociedade violenta – o elemento responsável por deteriorar mikves, yeshivot, etc.

A cidade inteira parece estar enclausurada no passado e na História, mas simplesmente esquece-se das torturas e perseguições. Não vi qualquer escultura ou símbolo que homenageie as famílias judias expulsas, convertidas, assassinadas, como se isso fosse apenas um detalhe secundário sem muita relevância, um acaso do destino que não podemos controlar[1].

A suposta convivência e tolerância é um atentado contra a verdade histórica. Dos corpos em estado de composição nas profundezas do Rio Tajo, sobrou apenas a memória e parece que desejam afogá-la também. Trata-se tudo com um ar nostálgico, até com certo tom de saudosismo. Parece que foram os judeus que simplesmente deixaram Toledo e abandonaram a judiaria, deixando suas ruas intactas.

A problemática é justamente a inversa do Holocausto: na Polônia, ensina-se muito sobre como os judeus morreram em detrimento de como viveram. Aqui, o contrário – mostra-se como viviam mas esquece-se de mencionar como foram exterminados.

Caminhado em ruelas próximas à praça central Zocodover, deparo-me com a seguinte inscrição acima da porta de uma casa alta:

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Na foto ficou ilegível, mas diz “Alonso Castellon, Secretário do Santo Ofício”.

Não estava em um museu ou em um memorial, a inscrição está em uma casa qualquer no meio da rua. A Inquisição esteve aqui há 300 anos, inclusive com um Tribunal permanente. Naturalmente, não há qualquer explicação sobre a vida de Alonso. Por que haveria de ter? Para que manchar a história da cidade com a recordação desse personagem? Melhor vender livros e chanukiot nas ruas e atrair turistas para conhecer onde os judeus prosperaram com fervor, ao invés de recordar de como morreram com pavor.

[1] Há, admitamos, uma exposição sobre a Inquisição e os instrumentos de tortura utilizados, mas ainda não notei sequer uma placa na cidade que faça referência ao museu; ele tampouco figura no mapa da cidade e na lista de 29 lugares turísticos.

 

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Novo Blog (não substitui este)!

https://bondadedodia.wordpress.com/

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Em breve…

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Um novo Blog está a caminho!

Aguardem mais informações, em breve…

 

 

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As lágrimas de Deus

terremoto-de-magnitude-62-atinge-centro-da-italia-e-causa-danos-e-mortosComo é de conhecimento notório, nessa semana um grave terremoto atingiu o cento da Itália, causando sofrimento e devastação. O prefeito de uma das cidades atingidas lamentou o fato noticiando que metade da cidade foi simplesmente destruída. O Papa cancelou parte de sua agenda para orar pelos feridos. Milhares de famílias perderam suas casas, centenas perderam seus entes queridos.

Sem adentrar em profundas questões geológicas, até porque eu e você não entendemos muito do assunto, podemos afirmar que o abalo sísmico foi consequência do choque entre diferentes placas tectônicas, pelo menos foi isso que aprendemos na sexta série.

Infelizmente, já estamos acostumados a ler notícias de tragédias e mortes: violência urbana, terrorismo, conflitos armado e epidemias já são parte da rotina dos jornais. Em uma primeira análise, há pouco o que fazer senão lamentar e aguardar alguns dias para que o assunto seja esquecido pela mídia. Do ponto de vista de reflexões judaicas, porém, há uma impactante diferença entre um terremoto e outras calamidades que vale a pena registrar.

Ao contrário de grande parte das tristes tragédias que corroem o mundo, o desastre natural não é, na maioria das vezes, consequência de atos humanos. Podemos culpar a Samarco pelo desastre em Mariana (MG), podemos responsabilizar o radicalismo islâmico pelos ataques covardes perpetrados na França e nos Estados Unidos, podemos até culpar as autoridades públicas pelo alastramento do vírus Zika. Indo mais além, podemos imputar ao Homem a responsabilidade pelas guerras, pelo genocídio, pela destruição, pela miséria, pela fome – isentando Deus da história. No entanto, nem mesmo um ambientalista do Green Peace ousaria afirmar que os italianos, ou a ideologia política italiana, ou a irresponsabilidade de cientistas italianos, justifica o terremoto ocorrido na Itália, ainda que houvesse poluição, desmatamento e aquecimento global.

Não há nexo causal entre a conduta humana e o desastre natural. A pergunta interessante que remanesce é – há nexo entre a conduta de Deus e o grave terremoto? Explico melhor: Será que Deus criou o mundo e deixou a engrenagem no automático para que a Natureza apenas siga leis já estabelecidas? Ou será que Ele controla e comanda todos eventos naturais? Deus quis que as placas tectônicas se chocassem a causassem centenas de mortes ou as placas tectônicas que estavam ali há milhares de anos apenas chocaram-se ao acaso, fortuitamente? Obviamente que a questão não é se Ele sabia que o abalo sísmico ocorreria e sim se Ele mesmo executou o desastre, perpetrou a destruição através das placas.

Estamos acostumados a falar ‘graças a Deus’ pelas coisas boas que acontecem. Somos ensinados que por trás do nosso esforço para o sustento sempre há a bondade divina e que não somos unicamente responsáveis pelos êxitos e sucessos pessoais, pois sem a ajuda de Deus não somos nada – o que é verdade. De outro lado, como falamos, somos ensinados que a culpa pelas tragédias mais sombrias que assolaram a humanidade é exclusivamente do Homem. Mas e quanto às catástrofes que o Homem nada tem a ver, como terremotos, furacões, tsunamis? Devemos falar graças a Deus por esses desastres? Ou Deus está por trás apenas das nossas conquistas e das coisas boas e belas da Natureza?

Baruch Spinoza, filósofo judeu holandês excomungado pelas autoridades rabínicas do século XVII, acreditava na comunhão, na confusão entre Deus e a Natureza. Para ele, Deus e Natureza são idênticos, uma mesma coisa.  Besteira? Talvez, mas Albert Einstein defendia a mesma ideia. Para o filósofo, portanto, o terremoto seria uma das expressões divinas, uma forma de exteriorizar a presença divina no mundo.

Mas vamos para fontes mais ortodoxas e confiáveis: o Talmud. As fontes judaicas tradicionais teriam algo a dizer sobre o terremoto, alguma explicação? Sim.

Em Massechet Brachot, Rav Kattina define terremoto como um “estrondo subterrâneo”. Tecnicamente está correto, apesar de talvez um pouco incompleto. Mas o que ele nos diz sobre a relação de Deus com tal estrondo? Rav Kattina responde às questões formuladas nesse texto da seguinte forma: o fenômeno natural ocorre porque Deus bate suas mãos, conforme está escrito “E também eu baterei minhas mãos, e eu vou satisfazer meu furor“. O terremoto é Deus batendo suas mãos.

Rabi Nathan discorda e diz que o barulho se dá em razão de Seu suspiro, conforme o versículo “Eu vou satisfazer o meu furor sobre eles, e eu serei aliviado“. Os outros sábios sustentam que Deus pisa no firmamento, baseando-se no passuk “Ele dá um ruído, como dos que pisam as uvas, contra todos os moradores da terra”. Rav. Aha filho de Yaacov, por fim, diz que Deus pressiona seus pés sob o Trono da Glória, conforme está escrito “Assim diz o Senhor, o céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos meus pés“.

Diferenças sutis a parte, todos parecem concordar que o terremoto da Itália tem uma intensa conexão com Deus. Ou Ele bateu suas mãos, ou suspirou, ou pisou no firmamento ou pressionou Seus pés sob o Trono da Glória, e para Rav. Kattina e Rabi Nathan a questão está intimamente vinculada à fúria de Deus.

Não cabe a mim – nem a você – tentar entender as razões pelas quais centenas de vidas foram destruídas, os motivos ocultos por trás da tragédia. Podemos somente rezar para que a situação melhore e agradecer por termos sido poupados e por ter uma vida constantemente abençoada. Mas, por outro lado, não podemos simplesmente desassociar Deus dessa história trágica. Se houve um abalo sísmico, de acordo com as fontes judaicas ora analisadas, não foi apenas em razão de uma sucessão de eventos naturais automáticos, e sim devido a uma vontade divina específica que causou o choque entre as placas tectônicas subterrâneas. Deus é autor do terremoto e a Natureza é a maneira pela qual Ele levou a cabo o desastre natural, seja por meio de suas mãos, de seu suspiro ou de seus pés.

Há ainda, uma outra opinião na Guemará, mais poética. Conta-se que Rav. Kattina passou em frente à casa de um necromante e ouviu o estrondo do terremoto. Quando questionou o necromante se ele sabia a natureza de tal barulho, escutou a seguinte resposta: “Kattina, Kattina! Por que eu não saberia? Quando o Santo, bendito seja, se lembra de Seus filhos que habitam na miséria entre as nações do mundo, Ele faz com que duas lágrimas desçam ao oceano, e o som é escutado de um canto do mundo ao outro – esse é o estrondo.”

 O que os italianos fizeram para enfurecer tanto Deus? Por que mereceram tamanho castigo e sofrimento? Se tudo é para o bem, como podemos enxergar o lado bom da tragédia? Perguntarei a Ele daqui a 95 anos. Até lá, torcemos para que as lágrimas de Deus não nos causem tantas lágrimas. E refletimos.

 

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Borboletas

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Muitas vezes ávidos e impacientes demais para apreciar o presente, almejamos ao futuro. Torcemos para que ele não demore, para que a nova fase, ou a nova etapa da vida, aproxime-se com velocidade e se apresente diante de nós de forma ágil.

Quando estamos no colégio, queremos ingressar na Universidade. Aprovados no vestibular, desejamos terminar os estudos da forma mais rápida possível. Conquistamos um emprego mas no mesmo ato da contratação já calculamos quando teremos uma promoção ou um futuro profissional e muitas vezes já cogitamos outra opção futura. Quando namoramos, já pensamos no possível futuro casamento. Enquanto desfrutamos as férias de janeiro, já pensamos no futuro descanso de julho. Planejamos, conjecturamos e tomamos muitas decisões não com base no ‘agora’, e sim fundamentados no ‘depois’.

Caminhamos no presente, com um pé no futuro. Vivenciamos o hoje com a finalidade de viver o amanhã. O efeito colateral, tão óbvio, todos conhecemos: sentimos saudades. Na faculdade sentimos saudades da escola, no trabalho sentimos falta da época da faculdade, aos 30 imagino que devemos sentir nostalgia dos 20 e, aos 50, deduzo que devemos concluir quão jovens éramos aos 30.

Tal ânsia pelo futuro muitas vezes nos leva a antecipar as fases da vida.

Toda borboleta nasce primeiramente um ovo, depois uma larva (lagarta) e somente então transforma-se em uma pupa. Apenas nesta última fase o casulo é formado e a pupa permanece isolada, repousando, talvez refletindo sobre sua existência e os desafios que estão por vir. Viver bem cada etapa é essencial para a borboleta finalmente romper o casulo, atingir a fase adulta e se transformar no esbelto inseto que conhecemos.

No entanto, nós, humanos, seres muito mais complexos que insetos, muitas vezes não valorizamos o processo: somos atraídos pelo futuro e buscamos simplificar a antecipar nossas etapas.

Esse desejo inconsciente é o que motiva crianças de nove anos a desprezarem brinquedos fabricados para idade delas por considerarem ‘babacas e infantis’, é o que incentiva jovens de 15 anos a se alcoolizar com vodca e cerveja, é o que pressiona jovens de 22 anos a não cogitar trocar a faculdade, sair do país, mudar de carreira, flexibilizar o rumo da vida, etc (esse ‘etc’ é fruto de uma pequena autocensura que fiz nessa parte do texto). Em uma era de fastfood, fastshop, fastpass, a fastlife parece ganhar força.

O tempo se esfarela diante de nós e a vida, que já é indubitavelmente curta, passa a ser encurtada.

Contrastando esse ímpeto de viver precocemente, Shlomo Hamelech preceitua:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. 
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;  Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

Eis as palavras do personagem considerado pelo judaísmo como um dos mais sábios da história da humanidade. Mas quem estuda Kohelet hoje em dia, não é mesmo? Quem tenta aprender lições de Eclesiastes? Tema para outro texto. Não desviemos; voltemos.

Se de um lado tentamos antecipar as fases, de outro deixamos de fazer coisas em nome de um amanhã.

O amanhã vira desculpa para não arriscar, o futuro nos prende na zona do conforto. É claro que é importante ter um projeto de vida e que devemos criar expectativas, ou, pelo menos, enxergar perspectivas durante a jornada, vislumbrar um objetivo maior que nos guie, um rumo que nos oriente. É claro também que o futuro não deve ser encarado com indiferença e que devemos saber que colheremos amanhã tão somente o que plantamos hoje. Mas há uma diferença entre planejamento e aprisionamento…

A vida, quando reduzida a uma sequência de atos pré-determinados, perde a espontaneidade e se transforma em um caminho estreito e certo, que evita curvas, subidas íngremes, descidas arriscadas e caminha em direção a um destino já estabelecido. É uma viagem que seguirá a rota que já conhecemos de antemão. Não usamos o Waze, somos avessos aos riscos inerentes a um trajeto diferente, sentimos mais segurança em trilhar o caminho que a multidão trilha, ainda que a outra rota alternativa possa nos levar em menos tempo ao mesmo destino final.

O futuro, nesse sentido, amedronta nosso presente e o medo nos freia. Defendemos que “se no futuro eu preciso ser/fazer/ter X, hoje não posso ser/fazer/ter Y”. Optamos por seguir o maligno conselho do filosofo contemporâneo Zeca Pagodinho no sentido de simplesmente “deixar a vida me levar, vida leva eu”. Esquecemos que, como disse Clarice Lispector, “o futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.”

Ao invés de se prender a um futuro supostamente previsível e inevitável em detrimento do presente, talvez precisamos nos afastar para ampliar nosso campo de visão e ter certeza do que queremos. Qualquer um que tentar aproximar um livro a um centímetro de seus olhos verá que não consegue enxergar, precisa afastá-lo para ler. A certeza que queria trabalhar com Direito se consolidou não quando entrei na Faculdade de Direito, não quando estagiei em um escritório de advocacia e sim somente após trabalhar um ano com importação no departamento comercial e financeiro. Se essa lógica se aplica a vida profissional, por que não aos outros campos? Nesse sentido, somos diferentes das borboletas: podemos nos afastar, refletir e exercer o poder de escolha de acordo com nossa consciência e valores.

A antecipação das fases da vida, a pressa e o conformismo a um futuro certo nos impedem de dar tempo ao tempo. Mas nem mesmo fotos do Facebook podem ser apreciadas instantaneamente – quando clicamos demora alguns momentos até tornarem-se 100 % nítidas. Isso porque o tempo, além de curar todos os males, esclarece, ilumina, desembaça. É ele, afinal, o grande responsável por criar asas coloridas naquelas que um dia já foram um simples ovo.

 

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SEFARIA e ELI TALKS

            Ainda que esteja na moda criticar o uso excessivo dos computadores e das redes sociais, não há como negar que a internet serve hoje como uma excelente ferramenta de estudo, análises e pesquisas, consagrando-se como uma fonte inesgotável de informação e conhecimento. É claro que existem muitas besteiras, materializadas através de textos pouco confiáveis escritas por autores com segundas intenções. Mas, em geral, pode-se afirmar que a internet possibilitou um amplo e inédito acesso à informações sobre todos os campos.

            Se o assunto não está no Google, é porque não existe.

          Imagine então um Google judaico, onde absolutamente toda sabedoria, todo conteúdo e todo conhecimento judaico produzido estaria reunido, organizado, pronto para ser pesquisado, examinado, saboreado. Imagine que o recipiente desse montante enciclopédico de informação pudesse resumir-se em uma vasta biblioteca judaica virtual que reunisse todos os livros já editados, comentários já escritos, estudos já realizados. Vou além. Imagine que tudo isso estivesse disponível em um idioma universal – o inglês, no caso – e que obras de centenas de anos atrás estivessem traduzidas na internet, prontas para serem apreciadas por qualquer um que entende o básico da língua inglesa.

            Pois é. Alguém imaginou e está fazendo.

      Basta acessar o site http://www.sefaria.org/ e ver com os próprios olhos. No computador o site funciona na íntegra, no celular dá para ter apenas uma noção da qualidade do trabalho) Não é preciso ser religioso para se impressionar com a Sefaria. O site tem uma interface excelente e apresenta todo Tanach, Talmud, Tossefta, Mishná, Halachá, Kaballah, Liturgia (rezas), Filosofia, Chassidut, Mussar, etc! A quantidade  imensurável de informação faz qualquer um se sentir ignorante diante da grandeza e vastidão do judaísmo.

           Um dos objetivos do projeto é ser referência na educação judaica, auxiliar professores na transmissão de conteúdo e preparação de aulas aos alunos. Por essa razão, é possível criar e publicar arquivos e pastas, elaborar um programa de estudo e contribuir com o futuro judaico digital.

            Mas não é só.sefaria-project

            O site também traz centenas de comentários de grandes rabinos sobre cada trecho e conexões com outras partes da Torá (“sources”). Por exemplo, somente na Perashá dessa semana (Emor), há nada menos do que 857 sources, de autores como Rashi, Rambam, Sforno, Ramban, OrHaChaim, Ibn Ezra, Chafets Haim. A grande maioria está traduzida para o inglês, mas o trabalho continua e é possível colaborar.

        O site vai além. É possível também ‘filtrar’ essas 857 sources. Por exemplo, posso escolher só ver sources ligados à Halachá (lei judaica) que se fundamentam em algum versículo da Perashá ou acessar apenas comentários filosóficos judaicos. Enfim, os recursos são muitos e as possibilidades são incontáveis.

            Cito mais um: é possível explorar conexões entre Talmud e Tanach. Isto é, o site possui uma teia imensa de vínculos entre a Torá Escrita e a Torá Oral. Só acessando diretamente pelo computador para entender a genialidade da coisa: http://www.sefaria.org/explore

            Por fim, a expressão “Google judaico” não foi sem motivos: há um campo ‘search’ em que posso pesquisar qualquer termo emhebraico ou inglês. Por exemplo, a palavra ‘love’ encontrou 1393 resultados (262 resultados do Tanach, 39 do Talmud, 214 em obras filosóficas, 29 em Mishná, 47 em Mussar, etc).

            Mas se você não gosta de ler e, por alguma razão mais profunda, que eu desconheço, não se interessou pelo Sefaria, não se preocupe. O brilhantismo da mente humana criou outra ferramenta judaica virtual ambiciosa e inovadora: ELI TALKS.

            Se a Sefaria é o Google judaico, o ELI TALKS é a versão judaica do famoso TED TALKS. TED TALKS é uma série de conferências destinadas a disseminação de diversas ideias que, segundo a organização, merece ser divulgadas. As palestras possuem curto tempo de duração (18 minutos no máximo) e a metodologia espalhou-se por todos continentes.

        ELI TALKS desempenha exatamente a mesma função, mas de maneira judaica. Diversos líderes, especialistas, rabinos, profissionais de todas as áreas produzem vídeos curtos sobre identidade, continuidade judaica, educação, liderança, vida judaica, Israel, filantropia, religião. O site oferece uma quantidade imensurável de reflexões judaicas na forma de vídeos curtos. Acessando http://elitalks.org/ e assistindo aos vídeos das palestras é possível conhecer diversos dilemas atuais, especialmente da comunidade judaica norte-americana, além de conhecer novas visões modernas sobre temas antigos.

           Eli Talks Logo-200x216

          No meu último post,criticado por alguns, afirmei expressamente que “a lei judaica não precisa de reforma. Mas criatividade na forma pela qual a cumprimos e a inovação ao vivenciar o judaísmo são ingredientes bem-vindos. Mais do que isso, talvez sejam indispensáveis.” É exatamente esse papel que novas ferramentas como essas estão desempenhando. O papel de pensar fora da caixa, inovar sem reformar, tornar mais acessível, elaborar soluções originais, desenhar estratégias a longo prazo.

       São ideias excelentes que estão sendo executadas por pessoas que jamais esqueceram seu passado sem nunca terem ficado presas a ele, que vivem intensamente o presente e que planejam, com ambição, dedicação e energia, o futuro do nosso legado.

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Pessach Kasher Ve SAMEACH

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Encerram-se, enfim, as 48 horas de Yom Tov de Pessach, dias sagrados da festividade. Assim como na maioria das festas judaicas, não podemos praticar as 39 ações vedadas no Shabat[1]. Destaca-se, entre elas, a proibição de acender fogo, que se estende ao conceito de energia elétrica para proibir qualquer contato com aparelhos eletrônicos. Na teoria tudo é muito bonito. Nesses dias, nos desconectamos do cotidiano para cumprir com o mandamento divino de descansar, não executamos qualquer atividade criativa, nos reunimos com nossos familiares, celebramos as históricas festas judaicas, vamos à sinagoga, rezamos e nos aproximamos de Deus.

Na prática, porém, por mais paradoxal que possa ser, o descanso cansa bastante.

A sequência comer-rezar-dormir amolece nossos corpos e instiga a fadiga. A preguiça gera mais preguiça e em pouco tempo nos tornamos cansados do ócio, nos sentimos pesados, um pouco sonolentos, talvez um pouco cansados da rotina espiritual. Ternos, gravatas e longos vestidos contradizem o sol escaldante e os 30ºC lá fora apenas intensificam a sensação de fraqueza, calor, inchaço, cansaço.

Nesse ano, o 1º dia de Pessach coincidiu com Shabat. Há anos, porém, que Pessach tem início na quarta-feira e logo quando termina é seguido do Shabat, onde temos mais rezas, mais comidas, mais ternos.

Esses dias, para aqueles que respeitam as leis mas ainda são incapazes de apreciá-las como se deve, são acompanhados por certo tédio, o que era para ser belo e revigorante torna-se um pequeno fardo, ou, como dizem muitos, um ‘rolê’[2].

Nosso grande desafio é saber transformar o Yom Tov e as festas judaicas em geral em algo verdadeiramente significativo, agradável, esperado e encantador. É aprender a vivenciar as experiências do calendário judaico de maneira intensa e leve ao mesmo tempo, de forma que obedeça a lei judaica, mas também seja algo que nós aproveitamos e saboreamos internamente. Pessach é a festa da Liberdade. Quantos de nós realmente nos sentimos livres? Sukot é a festa da alegria. Quantos de nós realmente nos sentimos alegres?

Um dos intuitos da Hagadá é transmitir a história do êxodo às crianças. Será que realmente cumprimos com esse mandamento ou apenas lemos a narrativa em um hebraico complexo enquanto os menores contemplam passivamente, ora agitados, ora com sono, o transcorrer da longa cerimônia? Talvez faria mais sentido assistir ao divertido musical O Príncipe do Egito, da DreamWorks Animations, com pipoca Kasher le Pessach e refrigerante Xereta à vontade?

O objetivo do costume de reclinar-se 45º à esquerda é para nos fazer sentir como reis. Será que realmente personificamos um monarca ou na realidade achamos a posição desconfortável e, dependendo da cadeira, uma injustiça com nossas costelas? Talvez faria mais sentido utilizar puffs, fons e almofadas?

A lei judaica não precisa de reforma. Mas criatividade na forma pela qual a cumprimos e a inovação ao vivenciar o judaísmo são ingredientes bem-vindos. Mais do que isso, talvez sejam indispensáveis. Tais como as tradições judaicas, o ânimo e o entusiasmo pelo judaísmo também são transmitidos de geração em geração. Até quando nossos descendentes estarão dispostos a sacrificar sua rotina em homenagem a um “conjunto de obrigações e afazeres” carentes de sentido e significado, que pouco agregam em suas vidas? Somente se cumprirmos os mandamentos com vontade, alegria, bom humor poderemos garantir sua continuidade, através do exemplo pessoal. De nada adianta cumprir com a festa judaica e com a tradição de forma mecânica, automática e robótica, sem demonstrar envolvimento sentimental, empatia e sensibilidade.

Nos dias de hoje, em que é tão fácil praticar ou deixar de praticar o judaísmo, em que a identidade já não é algo inato, sólido e eterno, em que há vasto acesso à informação, e em que as mudanças atingem recordes de velocidade; nos dias de hoje, em que a sociedade maior é aberta e as minorias são bem absolutamente livres para assimilar-se, em que a homogeneização cultural predomina, em que nenhum valor ou princípio é inquestionável e em que nenhum dogma é irrefutável, urge-se, pela primeira vez, a questão de porquê ser judeu, e não apenas como ser judeu.

Somente respondendo a essa pergunta – e revendo a maneira pela qual vivenciamos o judaísmo – teremos certeza que em 2016 ainda haverá um Seder de Pessach vibrante e significativo.


[1] Com exceção de algumas proibições, como carregar ou cozinhar.
[2] É claro que há aqueles abençoados com uma percepção mais elevada e consegue captar e interiorizar o descanso do Yom Tov. De outro lado, há aqueles completamente desconectados das tradições judaicas, que pouco se importam com as festividades. Portanto, é importante concluir desde já que esta análise não se aplica a muitos setores da comunidade judaica, a fim de evitar, nos comentários, uma acusação de “generalização” ou a publicação de que “este texto não me representa”.
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