The Five Legged Table

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No post anterior, apresentei a teoria de Avraham Infeld de que judaísmo não é uma religião e sim a cultura de um povo judeu e que o conceito de “peoplehood” deve se sobrepor ao de religião. Conclui escrevendo que é a partir dessa premissa teórica que Infeld desenvolve um inovador projeto vinculado à continuidade judaica. É o que passo a expor.

De acordo com o autor, é necessário considerar que a vida judaica significativa é como uma mesa de cinco pernas e focar a educação / identidade / consciência judaica nessa mesa.

Uma mesa de cinco pernas pode se sustentar com quatro ou, no mínimo, com três pernas. Temos que examinar essas cinco e escolher ao menos três para incorporar em nossa vida. O número mínimo deve ser três, pois se eu escolho duas e você duas, não teremos nada em comum. Mas se cada um de nós escolhe três, apesar de diferentes, nós partilharemos algo. Esses são os componentes que fundamentam a identidade judaica ou, na metáfora, as cinco pernas da mesa:

  • Memória: Enquanto a História aprisiona-se no passado, a memória nos indica como o passado pode sedimentar nosso presente e direcionar nosso futuro. Nas palavras de Infeld, judeus não tem História, judeus possuem memória. Judaísmo é repleto de “zecher”, “tizkor”, “zikaron” – variados termos que nos obrigam a recordar, a lembrar e relembrar.

  • Família: Judeus são uma família, entrelaçados por um passado comum. A Torá nos chama de “Bnei Israel” – filhos de Israel. Como em toda família, há brigas e discussões porém em um âmbito intimo, permeado pela certeza de pertencimento. A pessoa não escolhe ser ou não ser parte de uma família, tal como não escolhe ser ou não ser judeu e, em ambos os casos, não pode mudar isso mesmo que queira.

  • Aliança: No Monte Sinai o povo judeu realizou um pacto com D’us pelo qual nos comprometemos a reconhecer D’us e o monoteísmo, a cumprir os mandamentos (mitzvot), e transformar o mundo num lugar melhor (tikun olam). É o que muitos enxergam como ser um judeu observante.

  • Hebraico: Judeus rezam em hebraico não porque D’us não entende outra língua mas porque é o idioma que transmite a cultura de um povo para a próxima geração. O idioma hebraico constitui uma dos principais alicerces do povo judeu e traduz valores judaicos pela própria estrutura das expressões e palavras, um dos mais antigos idiomas do mundo que se revigorou e ressuscitou.

  • Israel: A Terra de Israel e o Estado de Israel são um dos centros da vida judaica atual. Em sua terra natal o povo judeu escreverá os principais capítulos de sua história. É em Israel que o judaísmo pode florescer em caráter nacional, e que a pátria judaica ergue-se após milhares de anos de exílio. Morar no Estado Judeu ou, em menor dimensão, identificar-se com ele e defende-lo deve ser um dever moral de todo jovem judeu.

A análise é inteligente e, de fato, engloba diversos aspectos do judaísmo. Gosto particularmente da possibilidade de escolher as ‘pernas’, respeitando-se a personalidade individual de cada um e seus respectivos talentos e falhas. Uma comunidade judaica comprometida em transmitir à próxima geração –  em âmbito formal e informal – a importância dessa ‘mesa’ e a maneira pela qual podemos aplicar e vivenciar esses conceitos certamente terá um futuro judaico promissor.

PARA SABER MAIS SOBRE AS CINCO PERNAS E AVRAHAM INFELD:

https://www.youtube.com/user/5leggedtable

http://5leggedtable.wix.com/5leggedtable#!about/cjg9

http://5leggedtable.blogspot.co.il/

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Religião judaica?

Rituais, símbolos, história, cultura, origens, costumes, gastronomia, literatura, filosofia, genealogia e outras dezenas de aspectos da vida judaica são apresentados ao visitante que percorre o primeiro andar do Jewish Museum em Londres.

‘What is judaism? Judaism is the religion and the way of life of the jews’.

Este é um dos primeiros anúncios do museu, o que me fez lembrar de um incrível discurso que escutei do Sr. Avraham Infeld, Presidente Emérito do Hilel, em um seminário da organização realizado em agosto de 2013 no Rio de Janeiro. Assim que a palestra acabou tive a intenção de transcrever a ideias extraídas para este Blog, o que faço agora,  antes tarde do que nunca.

Por que uma definição simples de judaísmo me fez lembrar de uma palestra ocorrida há 2 anos? Porque o auge da palestra de Infeld se deu quando ele bradou pausadamente em alto e bom som de forma enérgica: Judaism is not a religion! Judaism is the culture of the jewish people. A partir dessa sentença ele passou a expor os motivos que sustentam sua tese, contrária à do museu, de porque o judaísmo não deve ser considerado uma religião.  Esse papo de “judaísmo cultural” não foi novidade para mim. Já ouvi ideias semelhantes em diversas ocasiões. O grande destaque é que foi a primeira vez que escutei um senhor religioso, de kipá, observante da Torá, defender essa posição.

Sua primeira prova remete ao contraste entre judeus americanos e israelenses. Em suas palestras, Infeld costuma apresentar ao público uma tabela com três colunas. A primeira – maçã, pera, morango. A segunda – pepino, alface, rúcula. A terceira – judeu. A plateia deve completar a terceira coluna. Entre os americanos, 200.000 responderam como responderiam os brasileiros: judeu, cristão, muçulmano. Contudo, nenhum dos 40.000 israelenses completou a tabela dessa forma. Suas respostas foram unanimemente diferentes: judeu, árabe, americano. Isso revela que o povo judeu está totalmente confuso quanto a sua identidade. Quem está certo? Segundo Infeld, nenhum dos dois.

A religião judaica e o nacionalismo judaico surgiram na mesma época. Quando os judeus foram emancipados e puderam sair dos guetos um grupo entendeu que os judeus deveriam ter um próprio estado como as outras nações, originando-se assim o sionismo. Outro grupo interpretou que os judeus poderiam viver nas sociedades europeias da mesma forma que os cristãos, desde que não aceitassem o deus deles, originando-se assim a religião judaica.

Isso significa que antes do século XIX nunca existiu uma religião judaica. Os judeus eram considerados um povo e auto-denominavam como povo. Existe um povo muçulmano? Um povo budista? Um povo católico? Não. Mas existe um povo judeu, aliás constantemente somos chamados de AM Israel. A tese faz sentido.

Relembramos a saída do Egito pois foi esse episódio que nos transformou de um aglomerado de indivíduos em um povo, um povo que fez uma aliança com D’us para a eternidade. Quando Ruth converteu-se ao judaísmo a primeira coisa que disse foi “amecha, ami” – seu povo é meu povo, antes de proferir “seu D’ us é meu D’us”. Para ser judeu, primeiro precisamos nos sentir parte do povo, antes mesmo de exercer a religião judaica.

Em 1801, Napoleão Bonaparte encarregou o Ministro de Culto francês, Portalis, de preparar um relatório sobre as relações entre a religião judaica e o Estado. Em abril de 1802 Portalis leu diante da Assembleia Legislativa: “o governo cuida da organização de diversos cultos e tem também em conta a religião judaica, ela deve ser livre como as demais crenças conforme estabelece nossa lei. Porém os judeus, antes de uma religião, constituem um povo, vivem entre as nações sem se mesclar com elas.”

O que Haman disse a Achashverosh há 2000 anos? Como ele nos apresentou? Copio e colo o 8º passuk do 3º Capítulo: “Disse, então, Haman ao rei Achashverosh: Existe um povo, espalhado e disperso, dentre os demais povos de todas as províncias de teu reino, cujas leis são diferentes de qualquer outro povo, e que não cumpre as leis do rei; pelo que não convém ao rei conservá-lo”. Ele não afirmou ‘há uma religião ou uma fé diferente da que defende vosso reino’! Ele referiu-se ao conceito de povo!

Quando D’us faz uma promessa a Avraham ele não diz ‘e sairá de ti uma grande ideologia, fé, religião, crença’. Ele diz ‘farei de ti um POVO grande’. AM Israel Chai. O movimento charedi pode alegar que nossa essência é a religião. O movimento sionista pode alegar que nossa essência é uma nação. O movimento nazista pode alegar que nossa essência e é uma raça. Mas nós somos, antes de tudo, um povo. E é claro que isso não exclui uma cultura, um idioma, uma pátria.

Se o principal fosse a religião, seríamos indiferentes quanto o que ocorre com os judeus nas outras partes do mundo, simplesmente não seria do nosso interesse. Por acaso um muçulmano da Síria se identifica com um da Arábia Saudita? Pelo contrário, dependendo do caso eles podem vir a se matar! Mas os judeus não. Os judeus possuem o elemento “peoplehood”, intraduzível ao português. Se houvesse apenas a religião judaica qual seria o problema de casar-se com alguém de outra fé e cada um segue sua vida acreditando em suas crenças pessoais?

Não são poucos os argumentos que identifiquei que podem sustentar a ideia de povo. Mas Infeld vai mais longe: ele entende que a razão pela qual tantos judeus estão afastados do judaísmo e desinteressados é justamente essa concepção religiosa! De acordo com ele, insistir na existência de uma religião judaica está trazendo malefícios ao povo judeu, além de proporcionar denominações e subdivisões religiosas, desunião e carregar um sentido negativista. Apenas quando o conceito de povo for estabelecido, em detrimento do aspecto religioso, é que veremos mais judeus identificados com o judaísmo e ativos no mundo judaico. O interessante novamente é que as ideias não provem de um judeu ateu e laico e sim de um ortodoxo que cumpre as mitzvot.

Você pode pensar que isso tudo é um assunto a ser debatido no mundo das ideias, que é uma bela reflexão judaica sem consequências práticas. Contudo, é a partir dessa premissa teórica que Infeld desenvolve um inovador projeto vinculado à continuidade judaica. Não preciso nem dizer que não se trata de um kiruv ou aproximação religiosa por meio de yeshivot. É o que será abordado no próximo texto.

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Até quando as sinagogas europeias continuarão vazias de jovens?

Aqueles que também dependem do Google Maps para circular em cidades desconhecidas certamente compreenderão a complexidade do desafio que enfrentei ao caminhar de Knighstbidge à Marble Arch no Shabat, sem a possibilidade de usar o celular ou outro aparato tecnológico que orientasse meu rumo e guiasse meu caminho rumo à sinagoga londrina, em meu primeiro dia na capital inglesa.  Atrasei-me bastante, mas cheguei a tempo para a Seudá Shlishi. Após ser brevemente interrogado pelo segurança, entrei no salão no qual os congregantes – doze homens e cinco mulheres – já estavam sentados para iniciar a refeição. Apenas três turistas franceses aparentavam ter menos de 35 anos.

Talvez o baixo público se justifique pelas férias de verão. Talvez aquele sábado coincidiu com um grande evento em uma outra sinagoga, atraindo o público para outro local. Talvez não possamos tomar conclusões precipitadas com base em apenas uma visita. Mas não foi a primeira vez que a faixa etária do público de uma sinagoga europeia chamou minha atenção. A impressão que tive nas cidades que visitei e que, em alguns casos confirmei conversando com judeus locais mais velhos, é que ao menos em Paris, Milão, Londres e Bruxelas os jovens tendem a pertencer ou à corrente ultra ortodoxa ou à corrente laica, sem meio-termo. Universitários que seguem as tradições judaicas são um grupo cada vez mais raro e inexpressivo.  Raros são aqueles que, ao mesmo tempo, investem em sua formação acadêmica sem esquecer de sua formação judaica. Não são muitos os que decolam em sua carreira profissional levando consigo uma bagagem judaica. Ou vive-se em uma comunidade radicalmente fechada ou assimila-se radicalmente à sociedade maior. Tive a impressão que lá vigora a lei do tudo ou nada, ou uma coisa ou outra, ou 8 ou 80.

Ironicamente, ao mesmo tempo, o antissemitismo cresce exponencialmente. Jovens que não possuem nenhum vínculo verdadeiro com o judaísmo sofrem ofensas por serem judeus, moldando-se assim, ‘na marra’, sua identidade. O antissemita reconecta o judeu europeu afastado às suas raízes e o relembra conceitos muitas vezes esquecidos.

A gritante questão é: por que cada vez mais jovens judeus da Europa e do mundo em geral que querem se desenvolver academicamente, ser bem-sucedidos profissionalmente, que desejam usufruir da tecnologia e das oportunidades oferecidas por uma sociedade emancipada e moderna, excluem o judaísmo de suas vidas e o torna alheio a seus objetivos? Por que não harmonizam ambos? Por que não conciliam?

Acredito que a primeira razão seja a falta de informação e preconceitos. Há pouco conhecimento e muita opinião. A riqueza do judaísmo é simplificada e resumida a uma dezena de contos bíblicos que se aprende até a idade do Bar-Mitzvá e isto é considerado suficiente. Não obstante vivermos em uma era que possibilita um nível de acesso à informação sem precedentes, a moda de hoje é opinar sobre tudo antes de estudar profundamente qualquer coisa. O juízo de valor é formado de maneira irreversível e prematura, sem as ferramentas necessárias. Poucos reconhecem sua completa ignorância quanto a história do povo judeu, sua cultura, filosofia. A pessoa estuda e lê sobre socialismo, capitalismo, liberalismo, iluminismo, estoicismo, absolutismo, modernismo e esquece-se do principal ‘ismo’, aquele que atina com sua própria família e suas origens – o judaísmo. Muitos pensam que sabem, mas poucos sabem que pensam. Poucos, como Sócrates, sabem que nada sabem. Alguns artigos desse blog, confesso, podem ser considerados em certa medida um exemplo dessa prepotência de julgar e opinar sem saber.

Se a primeira razão é a falta de informação, a segunda é a informação transmitida de forma inadequada.

Utiliza-se o sofrimento judaico como justificativa para exercer o judaísmo. Ensina-se o que foi o Holocausto, organizam-se visitas a museus e monumentos, explica-se como e quantos judeus foram assassinados. O motivo para defender a continuidade judaica passa a ser “para não dar uma vitória póstuma a Hitler”. É necessário ser judeu “por causa do Holocausto”. “O mundo inteiro nos odeia”. Essa visão negativista é responsável pelo afastamento, pois a condição judaica passa a ser vista como um fardo, uma marca de nascença indesejável. Judaísmo é vinculado diretamente com antissemitismo, perseguições, opressões através de uma perspectiva pessimista. Judeus passam a se considerar como vítimas permanentes e passam a se enxergar a partir da visão dos outros.  Como esperar que um jovem queira incorporar isso em sua vida?

A terceira razão é a vivência judaica. Se as festas e o shabat não são envolvidos por alegria e se o cumprimento das mitzvot é permeado por apatia e indiferença, ser judeu torna-se algo chato, uma obrigação indesejada. Isso pode ser traduzido no famoso “é rolê” contemporâneo. Não é necessário grande ginástica de raciocínio para perceber a insustentabilidade dessa forma de viver o judaísmo. Se nossas experiências judaicas não proporcionarem felicidade, emoção, energia, significado, sentido, entusiasmo, estamos fadados a não dar continuidade ou a condenar nossos filhos a viverem um mesmo judaísmo enfadonho através do nosso exemplo cotidiano.

Por fim, o mais importante. A educação judaica atual está focada no COMO e não no POR QUE. Está concentrada nos ritos e não nos significados. Os jovens que tem contato com a educação judaica muitas vezes aprendem como ser judeu, mas não porque ser judeu.

Exemplifico nas palavras de Marco Candi: “na escola me advertiam sempre que estava com a cabeça descoberta, me obrigavam a usar a Kipá em todo momento. Mas jamais me foi explicado o porque, os motivos, as razões, um significado mais profundo por trás”.

Durante a infância essa forma de comunicar e ensinar (COMO) faz sentido e traz benefícios. Mas quando o indivíduo começa a pensar por si próprio, a conhecer novas ideias, a refletir sobre o propósito da vida e seus objetivos, é necessário transmitir um judaísmo mais significativo (POR QUE). A educação judaica deve tratar os jovens como adultos e abordar temas que vão além de explicações de detalhes ritualísticos dogmáticos, muitas vezes vistos como sem sentido ou banalizados pela inércia cotidiana. Deve-se enfrentar os desafios e questões que se impõem no século XXI e responder, com convicção, clareza, e maturidade, porque manter-se judeu, por que praticar o judaísmo e pertencer a uma comunidade. Como esperar que alguém usufrua de sua herança sem saber o que ela significa e sem a valorizar? Como esperar que alguém se case dentro do judaísmo e crie um lar judaico se ele não tem motivos suficientes para tentar vencer uma tentação externa?

Sim, nós também precisamos de um Google Maps judaico que nos oriente se devemos virar à direita ou a esquerda, que nos guie passo a passo até atingirmos o destino final. Mas se não tivermos razões suficientes para seguir o caminho simplesmente ignoraremos o mapa e suas diretrizes.

Enquanto a ignorância sobre o judaísmo reinar, enquanto o antissemitismo ser o único vínculo com o povo judeu, enquanto as experiências judaicas serem entediantes e enquanto o COMO ser ensinado em detrimento do PORQUE, as sinagogas continuarão vazias.

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Olá!

Rompendo o silêncio do Blog que já se alonga por mais de um semestre, retorno. Postar um artigo por semana como nos velhos tempos me parece tarefa impossível, tanto pela falta de tempo disponível quanto pela ausência de tantos temas para refletir.  De qualquer forma, tentarei escrever com mais frequência e reativar o site.

Acessando o novo sistema de estatísticas do WordPress notei que, mesmo sem posts recentes, este Blog recebeu entre 400 e 500 visitantes por mês. A grande maioria de acessos foi direcionado à página “Frases Talmúdicas e Bíblicas”. O interessante é que consigo visualizar o mecanismo de busca dos usuários. Muitos pesquisam no Google “frases judaicas”, “sabedoria da Torá”, “filosofia do Talmud” e encontram este site. Por isso tentarei, na medida do possível, renovar e atualizar essa área do Blog, no intuito de saciar um pouco a sede de conhecimento e informação que muitos judeus e não judeus compartilham.

Transcrevo aqui o que escrevi em 2012 na inauguração do Blog e que está permanente disponível na página “Shalom”: há pessoas muito mais profissionais e habilidosas para ensinar a religião os valores judaicos, de modo que esse Blog apenas trata de questões mais reflexivas e polêmicas sobre o judaísmo contemporâneo. Destinado a todos que possuam um conhecimento básico sobre judaísmo, principalmente a jovens judeus preocupados com a dinâmica do mundo e com o lugar dos judeus na comunidade internacional e judaica. Vários dos posts apresentarão interrogações! Convido o leitor a comentar e debater os temas abordados!

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Judaísmo na Ásia

              Não costumo postar textos do tipo jornalístico, mas vale a pena abrir uma exceção para contar a respeito da minha viagem de fim do ano à Tailândia e Camboja.

                O judaísmo da Ásia supera qualquer expectativa. Destino clássico dos israelenses, Tailândia possui vários restaurantes que lembram os de Jerusalém, centros de turismo especiais, placas e anúncios em hebraico. Nas cidades que visitei – Bangkok, Shiang Mai e Koh Samui – escutei hebraico nas ruas e li hebraico em outdoors. Talvez esse seja justamente o motivo da presença maciça de uma das maiores instituições judaicas ortodoxas da atualidade: O Beit Chabad.

               Baseado e inspirado nos ensinamentos do Rebbe de Lubavitch (R. Menachem Mendel Schneerson) Z’’L, grande líder do povo judeu, a organização possui como um dos objetivos principais transmitir o judaísmo em todos os cantos do mundo, resgatando judeus afastados de suas origens e propiciando vida judaica onde houver judeus presentes. Onde há uma faísca de judaísmo, há um emissário do Beit Chabad que dedicará sua vida à acendê-la.

                 Na capital tailandesa, a sede do Chabad está localizada na agitada Kaho San Road, um dos principais pontos turísticos da cidade. Em meio a casas de massagem, lojas, barracas vendendo insetos fritos, é possível avistar ao longe a placa que indica o prédio. O edifício concentra um restaurante kasher, uma loja que vende produtos kasher importados e uma sinagoga, além de disponibilizar telefones e computadores. Consagra-se assim como um ponto de encontro entre muitos jovens, o que justifica o grande fluxo de entrada e saída de turistas, em sua maioria israelense. Conversando com o rabino do Chabad, descobrimos que há outras sinagogas na cidade, ambas com rezas diárias, além de Mikve e escola judaica.

                Já em Koh Samui, uma pequena ilha da Tailândia, por incrível que pareça o Beit Chabad possui ainda mais presença. Instalado perto da praia, o restaurante é muito maior que o de Bangkok. Assemelha-se mais a um grande refeitório. Fomos na véspera de Shabat e flagramos a preparação para o jantar de sexta-feira. Nos informaram que estavam esperando mais de 500 pessoas! Infelizmente não pudemos participar, pois o hotel era longe.

                Shiang Mai, um estado no norte, também possui seu próprio Beit Chabad, próximo ao famoso Night Market, embora menor que o da capital sem aquele agitado movimento, embora o hambúrguer kasher seja um dos mais saborosos que já experimentei. De qualquer forma, o que impressiona é que há uma sede (que compreende, no mínimo,  um restaurante kasher e uma sinagoga) em cada cidade, um rabino enviado onde há ou pode haver judeus e que dedica sua vida ao ideal do movimento.

                Foi somente em Camboja que entendemos com plenitude e a dimensão dessa missão.  Passamos uma noite na capital, Phnom Pen e fomos visitar o Beit Chabad de lá, que também justamente se autodenomina centro judaico do Camboja. Jamais imaginamos que em um país como Camboja – tão distante, com uma cultura tão diferente – pudesse haver um rabino que garantisse aos 80 judeus que lá vivem a possibilidade de vivenciar as tradições judaicas, como Shabat e Chaguim. A frase abaixo da placa parece querer justificar a existência do lugar, garantir que todos entendam o que fundamenta o funcionamento de uma instituição judaica na região. Ao contrário do Beit Chabad tailandês, o de Camboja não conta com dezenas de pessoas. Chegamos lá e havia apenas um rabino que nos explicou que fora enviado de Nova York para o Camboja e que era responsável por todo judaísmo naquela região. Havia se mudado há 5 anos com a esposa e os filhos e permanecerá lá  por tempo indefinido. Apesar de sua fé e determinação admiráveis, o rabino  – como qualquer ser humano – transpareceu um pouco de solidão. Não é para menos, visto que passa o dia naquela casa, a espera de turistas judeus. Nos explicou que Chanuká é comemorado naquele restaurante (que fica lotado no momento do acendimento das velas), e que há um jardim de infância judaico no andar de cima, bem como uma sinagoga.  Nos disse que em  Pessach e em Rosh Hashaná a comunidade judaica cambojana, liderada por ele, aluga um salão de um hotel para realizar o seder. Por fim, comentou que também cuida da parte logística, é responsável por enviar alimentos kasher a turistas que estejam em outras partes do Camboja.

beit chabad camboja

Beit Chabad Camboja: “No jew will be left behid”

                Retornamos ao Brasil conhecendo muito melhor a filosofia budista e a religião hindu, após visitar vários templos e estátuas. Mas também compreendemos que, no meio de tanto politeísmo e idolatria, a centelha do judaísmo brilha e, graças a jovens rabinos que dedicam a vida à seu povo, recusa-se a apagar.

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Essav e a venda da primogenitura

                Como não escrever sobre a Parashá dessa semana – Toledot?

              Impossível deixar passar em branco o nascimento de Yaacov e Essav, a venda da primogenitura, a troca das bênçãos paternas, a cumplicidade de Rivka. Todos esses episódios nos levam a muitas questões e reflexões, algumas incômodas, outras desafiantes.

         A Parashá começa nos relatando que Rivka era estéril, como muitas de suas contemporâneas bíblicas. Seu marido, Yitzhak, reza para Deus e ela engravida após 20 anos de casamento. Ela agradece seu marido pelas rezas? Agradece Deus pelo milagre? De acordo com o texto bíblico, por conta das fortes dores que começa a sentir, Rivka reclama das dores e chega a se arrepender de ter desejado ter um bebê  – “se as dores da gravidez são assim tão intensas, porque eu desejei estar nesse estado?”. Contudo, não podemos julgá-la, não passamos por tais dores, na hora do aperto as pessoas dizem coisas que nem sempre correspondem com a realidade: o famoso “calor do momento”.

           Continuemos. Rivka vai à Yeshiva de Shem em busca de uma mensagem divina sobre o que está acontecendo. Recebe a informação de que sairá de seu útero o ancestral de dois grandes povos, e que um governará o outro. Um famoso Midrash diz que quando a mãe passava por casas de Torá ou de idolatria, um dos bebês se movimentava. Essav ainda não nasceu, mas já é idolatra. Tem livre arbítrio? Pode ser punido se é vítima de um destino selado antes mesmo do nascimento, destino esse que o condena ao pecado? Como tem a opção de escolher se dentro do útero já se atraía pelo mal? Ainda não procurei o suficiente tais respostas pois não as encontrei.

             Mas não importa: fato é que Essav simboliza o ruim e Yaacov personifica o bom. A interpretação das entrelinhas do texto bíblico ou glorifica Yaacov ou demoniza Essav. O pai – Yitzhak – gostava de Essav, pois ele provia alimentos, ao passo que Rivka gostava de Yaacov. Por quê? Não sabemos.

             Ressalte-se que a Torá nos diz que Essav era quem caçava e proporcionava comida, enquanto que Yaacov ficava nas tendas estudando Torá. Não há nada no texto que indique que Essav exigia algo em troca por isso, alguma contraprestação. Mas há um dia – Rashi nos diz que no dia da morte de Avraham – que Yaacov é quem está cozinhando e servindo a comida.

            Essav chega do campo exausto e roga por um prato de lentilhas vermelhas. Yaacov não serve seu irmão. Ao invés disso, o chantageia, oferece um preço: venda-me sua primogenitura e eu darei. Não consigo entender essa parte do texto. Como Yaacov, um judeu comprometido, se nega a alimentar seu irmão? Seu irmão que, lembre-se, desempenhava exatamente o papel de colocar comida na casa? Quantas vezes Essav já deve ter lhe servido carne de sua caça sem cobrar preço algum? Imagino se Yitzhak tivesse presenciado a cena. Iria deixar passar em branco essa ‘proposta’ de Yaacov ou o repreenderia em público? Deixar de dar comida para seu irmão esfomeado, ou impor uma condição exorbitante para tanto, não seria contraditório aos princípios de Chessed, de respeito ao primogênito, de Derech Eretz?

           Talvez seja pela natureza da minha profissão que sinto uma inclinação de defender Essav, o malvado. Essav, o idólatra, o assassino, o cínico, o enganador. Mas lembremos: ao contrário de religiões que prezam a santidade irrepreensível de seus protagonistas, o judaísmo considera seus personagens principais como seres humanos elevados, mas igualmente passiveis de falhas humanas. Teria sido a compra de primogenitura uma falha de Yaacov, que aproveitou-se da fome desesperada de seu irmão para conseguir o que queria? Uma malandragem? Confesso que sinto falta de algum argumento ou comentário em favor de Essav, apenas para provar que não existem pessoas perfeitas e que ninguém é 100% inocente ou culpado.

           Hoje em dia, a venda da primogenitura seria, no mínimo, um negócio jurídico anulável por ter sido celebrado mediante lesão, conforme preceitua o Art. 157 do Código Civil:

Art. 157. Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta.

§1Aprecia-se a desproporção das prestações segundo os valores vigentes ao tempo em que foi celebrado o negócio jurídico.

              Mas na época essa legislação não estava vigente e a legislação judaica não parece repreender a conduta. Assim, temos que partir do pressuposto que foi uma troca justa, equilibrada e que deve prosperar por ter sido realizada mediante ampla concordância de ambas as partes. Além disso, Essav desprezou a primogenitura, portanto provou não ser merecedor. Preferiu a satisfazer sua fome e sua fadiga, respondeu “de que adianta essa primogenitura se vou morrer um dia de qualquer jeito”.

                Entretanto, ainda que legítimo pela Torá, o acordo realizado causa desconforto. Rashi diz que Yaacov agarrou o calcanhar de Essav quando ambos estavam nascendo, para assim tentar sair primeiro e adquirir a primogenitura legalmente. Poderíamos inferir daí que a aquisição da primogenitura por outros meios que não o natural seria ilegal?

          De qualquer forma, tenho a impressão que a ideia toda foi de Rivka, que agiu nos bastidores. Yaacov é descrito como um homem ‘tam’ – honesto, simples, ingênuo. Não o imagino nessa posição.

              Mas desconheço se há algum comentarista que mencione a interferência da mãe no episódio. Ela só desempenha um papel fundamental em um capítulo mais tarde, quando os filhos serão abençoados pelo pai. Capítulo este que novamente nos fará refletir sobre as atitudes do 3º patriarca e a situação de Esasv. Fica para um próximo texto.

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Shabat Shalom!

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            Há aproximadamente 10 anos, decidi cumprir o Shabat conforme ordena a lei judaica ortodoxa, isto é, sem ter nenhum tipo de contato com eletricidade, abstendo-se assim de ligar ou desligar a luz, o celular, a televisão, bem como evitando escrever, apagar, carregar, entre outros mandamentos que derivam das 39 proibições bíblicas.

          Não entrei nessa sozinho.  Tive o apoio dos meus pais e pouco a pouco praticamente todos meus amigos passaram a respeitar o sábado. Quem não cumpria, passou a ser exceção.

            Pois bem.

        Eis que me aproximo de 2015 contando nos dedos – literalmente – aqueles que todavia cumprem a risca tudo, abdicam de suas vontades (ou, muitas vezes, de suas necessidades) em prol das ordens divinas e rabínicas. Churrascos aos sábados, por exemplo, viraram regra. Poucos são os que vão na sinagoga, pouquíssimos os que deixam de viajar sexta para não infringir o shabat à noite.

         Paro. Abro parênteses. Classifico que há duas formas de respeitar o shabat: uma material e outra religiosa. O shabat religioso é o que está codificado nas leis, as proibições supracitadas, as rezas na sinagoga. O shabat material é o clima, ambiente, ou atmosfera do shabat: reunir-se com a família na noite de sexta e almoço de sábado, evitar trabalhar, descansar, tornar o dia especial e diferente ainda que isso não implique se submeter a todas as leis da religião.

              Fecho parênteses. Continuo. Questiono:

             Será que o desleixo com o shabat é um fenômeno específico que atinge meu grupo de amigos ou é apenas um processo natural que inicia-se com o ingresso do jovem na universidade e culmina com seus 22 anos de idade, quando ocorre seu gradual afastamento de instituições judaicas como movimentos juvenis ou sinagogas? Se é uma fase, será ela duradoura ou em poucos meses passará? As tentações crescem de maneira insuportável? O temor ao divino é desprezado? O senso crítico se sobrepõe às rígidas leis? Tudo isso diz respeito ao shabat religioso.

             Entristece constatar que, infelizmente, muitos de nós também vêm deixando de lado o shabat material. O que anos atrás parecia incogitável – como sair para balada na sexta-feira a noite – agora é aceitável, comum. Grupos de whatsapp funcionam a todo vapor no sábado. Não recordo a última vez que escutei de um jovem judeu tradicional (não ultra-ortodoxo) o lamento “gostaria de ir, mas é shabat”. O shabat não impede nada. O shabat não está sequer em segundo plano, simplesmente não está no plano.

                 Tenho moral? Não. Respeito na medida do possível, mas estou longe da perfeição. Não estou disposto a não almoçar, por a comida ter sido feita no shabat, ou dormir de luz acessa para não ir contra a regra que proíbe desligar. Mas sinto que pouco a pouco estamos menosprezando as tradições judaicas de uma maneira exagerada, para não dizer arrogante. E o desrespeito não diz apenas a apertar o botão do elevador e sim a toda uma vivência do espírito sabático, uma conexão com o shabat de maneira mais profunda e densa.

                O mais paradoxal de tudo é que muitos que ainda cumprem o shabat, dos quais eu me incluo em parte, não demonstram ser esta uma experiência atraente. Confessamos: quantas vezes não olhamos para o relógio para saber quanto tempo falta para escurecer e, no minuto que o shabat termina, já corremos desesperados ligar o celular, aliviados que finalmente cessarão as proibições? Quantos de nós achamos um fardo o cumprimento do shabat em sua plenitude e apelamos para desvios “menos graves”, como pedir para alguém ligar a televisão ou a luz por nós? Respeitamos o shabat, mas o enxergamos como um privilégio, uma benção, uma dádiva ao povo judeu? Ou cumprimos por ser uma obrigação já consolidada, para não rechaçar as tradições que seguimos desde crianças? Ficamos satisfeitos com o descanso ou ele nos cansa ainda mais?

             Para concluir, creio que ambos os temas estão relacionados: jovens judeus vão deixar de respeitar o shabat se o enxergarem como um obstáculo, uma gama de proibições que complicam seu final de semana. É missão dos que ainda respeitam as regras atestar que vale a pena manter as tradições, ao menos do shabat material. A observância do shabat deve ser vista de uma maneira positiva e atrativa: a única maneira de fazer isso é através do exemplo pessoal dos que (ainda) cumprem.

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